Monitoramento de ficotoxinas em cultivo de moluscos bivalves: uma questão desegurança alimentar

 

Por Camila Prestes dos Santos Tavares

Publicado em 08/04/2015

 

A maricultura de moluscos bivalves é um ramo da aquicultura que sempre tem enfrentado problemas econômicos e de saúde pública relacionados à ocorrência de algas nocivas nas regiões produtoras.

As florações de microalgas podem trazer danos econômicos à atividade, pois a elevada densidade de determinadas microalgas pode causar a depleção de oxigênio da água, causando mortalidade dos organismos cultivados (Figura 1: A; B). 

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FIGURA 1. Mortandades de peixes devido a florações de algas nocivas; A) Floração de Karenia brevis no Texas/EUA (FONTE: www.whoi.edu); B) Floração de Microcystis sp. em Lake Binder, IOWA/EUA (FONTE: toxics.usgs.gov).

 

Além disso, algumas espécies também podem produzir substâncias tóxicas com efeitos diretos aos organismos cultivados e suas larvas, ou, ainda, podem trazer problemas de saúde pública, uma vez que estas florações podem estar associadas com a produção de ficotoxinas que podem se bioacumular nos moluscos bivalves cultivados (Figura 2), afetando seus consumidores, incluindo o ser humano, por meio do consumo do fruto-do-mar contaminado, fato agravado pela característica termoestável da maioria das moléculas, ou seja, o cozimento do frutos-do-mar contaminado não ameniza a toxidade do mesmo, na maior parte dos casos.

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FIGURA 2. Floração de dinoflagelados produtores de ficotoxinas diarréicas (Dinophysis sp.) em área de cultivo de molusco bivalve em abril de 2008 em Canto Grande/SC (FONTE: EPAGRI).

 

Este último efeito nocivo também afeta economicamente a atividade aquícola, pois além da possível perda de estoques por causa dos efeitos diretos, ocasiona um prejuízo financeiro com a proibição da venda dos estoques contaminados com as ficotoxinas, principalmente quando as florações acontecem em épocas de alta comercialização (Figura 3). 

 

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FIGURA 3. Fotografia de uma placa de aviso de Interdição da colheita e consumo de moluscos, devido à contaminação por florações de algas nocivas – EUA (FONTE: www.whoi.edu).

 

As ficotoxinas que afetam os seres humanos são agrupadas pelos efeitos e sintomas que causam, dentre as quais se destacam as causadoras de ASP (envenenamento por consumo de mariscos), DSP (envenenamento diarreico por consumo de mariscos), NSP (envenenamento neurotóxico por consumo de mariscos) e CFP (envenenamento por consumo de peixes, ou ciguatera).

Nos últimos anos, no Brasil, florações de microalgas nocivas também têm causado prejuízos econômicos e problemas de saúde pública, incluindo a hospitalização de dezenas de pessoas que ingeriram moluscos bivalves contaminados durante florações no estado de Santa Catarina em 2007, foi detectado na Baía Sul de Florianópolis níveis superiores ao considerado seguro de microalgas produtoras de toxinas diarréicas em área de cultivo de moluscos, ocorreu interdição da colheita e do consumo de moluscos na região, 130 pessoas apresentaram desconfortos gastrointestinais. Depois de alguns dias em Tjucas do Sul, mais 150 pessoas apresentaram os sintomas do DSP.

Reconhecendo tamanha importância, o Programa Nacional de Controle Higiênico Sanitário de Moluscos Bivalves – PNCMB, através da Instrução Normativa Interministerial nº 7, de 8 de maio de 2012, objetiva estabelecer requisitos mínimos necessários para a garantia da inocuidade e qualidade dos moluscos bivalves destinados ao consumo humano no Brasil. Ele considera a necessidade de monitoramento de microalgas nocivas e ficotoxinas em moluscos bivalves como medida de prevenção de efeitos nocivos à saúde do consumidor, e com a finalidade de garantir padrões mínimos de qualidade.

No Estado do Paraná não há programa de monitoramento de microalgas nocivas, reduzindo as chances de comercialização de produtos provenientes da aquicultura (ou de estoques naturais) que apresentem risco à saúde dos consumidores. Esse programa é necessário pelo fato da população local depender economicamente de atividades como a pesca, turismo e a maricultura. A necessidade aumenta devido aos resultados dos estudos realizados no litoral do Paraná, por pesquisadores do Centro de Estudos do Mar (CEM-UFPR), que comprovam a existência de microalgas potencialmente nocivas em águas paranaenses, os principais riscos estão associados à ocorrência de microalgas produtoras do DSP, entre outras espécies que podem causar a mortalidade de organismos marinhos.

 

REFERÊNCIAS CONSULTADAS:

BRASIL. Ministério da Pesca e Aquicultura. Instrução Normativa Interministerial nº7 de 8 de maio de 2012. Dispõe sobre a necessidade de monitoramento de microorganismos contaminantes e de biotoxinas marinhas em moluscos bivalves. Diário Oficial [da] Republica Federativa do Brasil, Brasília, DF, 9 de maio de 2012.

HALLEGRAEFF, G.M. Harmful Algal Blooms: a global overview. In: HALLEGRAEFF, G.M.; ANDERSON, D.M.; CEMBELLA, A.D. (Ed.). Manual on Harmful Marine Microalgae – Monographs on oceanographic methodology 11. Paris: UNESCO, P. 25-50, 2003.

PANORAMA DA AQUICULTURA. MPA lança Programa Sanitário para Moluscos Bivalves e Rede Nacional de Laboratórios. Edição 130, Pag. 63. Março/abril, 2012.

PROENÇA, L.A.O. et al. Just a diarrhea? Evidence of diarrhetic shellfish poisoning in Santa Catarina, Brazil.Ciência e Cultura, v. 50(6), p. 458-462, 1998.

PROENÇA, LAO, MA SCHRAMM, MS TAMANAHA & TP ALVES. Diarrhoetic Shellfish Poisoing (DSP) Outbreak in Subtropical Southwest Atlantic. Harmful Algae News. UNESCO.33: p 19-20, 2007.

VAN DOLAH, F.M. Marine algal toxins: Origins, health effects, and their increased occurrence. Environmental Health Perspectives, V. 108, P. 133-141, 2000.