Por Dr. Giorgi Dal Pont

Desde o início do desenvolvimento da população humana como sociedade, uma série de alterações antropogênicas foram causadas ao meio ambiente terrestre e aquático. Inicialmente preocupava-se somente com problemas causados pela contaminação microbiológica resultantes do adensamento populacional. Todavia, as décadas pós revolução industrial trouxeram consigo uma série de avanços tecnológicos e, associados a esses avanços, o uso de substâncias químicas que causariam diversos tais problemas ambientais. Desde o uso indiscriminado de pesticidas, combustíveis orgânicos derivados de petróleo e as bifenilas policloradas (PCBs) a sociedade moderna vem criando e novos produtos com grande potencial poluidor.

Recentemente, um novo produto foi caracterizado como sendo de grande importância do ponto de vista de contaminação ambiental. A detecção de imensas quantidades de plástico em ambientes aquáticos começou a chamar a atenção pesquisadores ao redor do mundo. Inicialmente, acreditava-se que a presença de objetos de plástico no ambiente poderia causar dano à animais aquáticos de grande porte, como baleias, aves e tartarugas. Porém, quando a presença de pequenas partículas, oriundas da degradação desses materiais, foram encontradas, um novo mundo de possibilidades de interação começou a ser prospectado. Por exemplo, as partículas de plástico podem ser classificadas como megaplástico (> 50cm), macroplástico (5-50 cm), mesoplástico (0.5-5 cm), microplástico (0.05-0.5 cm) ou nanoplástico (< 0.03 cm).  Com isso, o número de pesquisas avaliando os efeitos desse material para outros grupos de organismos aquáticos aumentou substancialmente. Uma busca rápida no Google Acadêmico mostra que em 2019 mais de 3 mil artigos foram publicados sobre a presença de microplásticos em ambientes aquáticos. Tais artigos apresentam distintas abordagem que variam desde a avaliação dos efeitos da ingestão em diferentes níveis tróficos até os processos de biodegradação dos plásticos por bactérias.

Devido ao seu tamanho, os microplásticos são muito mais fáceis de serem ingeridos em comparação aos macroplásticos. Esse processo de ingestão involuntária de microplásticos presentes no ambiente já foi descrito cientificamente para uma série de espécies aquáticas (mexilhões, anfípodes, cracas, pepinos do mar e peixes). Durante o processo de ingestão, os componentes físicos e seus produtos químicos tóxicos, como pequenas partículas de micro ou nanoplásticos, podem causar efeitos prejudiciais aos organismos. Essas partículas podem apresentar um risco físico de maneira semelhante a um item grande, e causar abrasão interna e bloquear apêndices do sistema digestivo. Além da sua durabilidade e persistência no ambiente e dos riscos físicos que apresenta, os microplásticos apresentam um grande potencial de ameaça ao meio ambiente devido a sua capacidade de atuar como vetor para outros contaminantes químicos. Devido à sua grande área superficial específica, os microplásticos podem absorver e concentrar muitos contaminantes químicos orgânicos e inorgânicos, introduzindo toxicidade indireta. Alguns contaminantes orgânicos hidrofóbicos, como os poluentes orgânicos persistentes (POPs), têm maior afinidade com a superfície hidrofóbica dos microplásticos, e podem estar concentrados nessas moléculas em até 6 ordens de magnitude maiores do que as da água do mar ambiente. Diferentes tipos de polímeros de microplásticos podem introduzir toxicidade indireta diferente. Vários POPs, PCBs, pesticidas organo-halogenados, nonilfenol, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) e dioxinas foram detectados em partículas de plástico coletadas no ambiente. No entanto, foi proposto que muitos aditivos inorgânicos, como metais pesados, podem ser mais tóxicos em comparação com os poluentes orgânicos.

Atualmente, o Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais (GIA) e o Grupo de Química Ambiental (GQA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) estão colaborando com pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade de Ecossistemas Costeiros e Marinhos (PPG-ECOMAR) da Universidade Santa Cecília (UNISANTA) para o desenvolvimento de pesquisas relacionadas à investigação dos efeitos combinados resultantes da exposição de espécies nativas de peixes à microplásticos em presença de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos.

Sugestões de Leitura:

Alimba, C.G., Faggio, C., 2019. Microplastics in the marine environment: Current trends in environmental pollution and mechanisms of toxicological profile. Environmental Toxicology and Pharmacology. 68, 61-74.

da Costa, J.P., Duarte, A.C., Rocha-Santos, T., 2019. Plásticos no ambiente. Recursos Hídricos. 40, 11. http://www.aprh.pt/rh/pdf/v40n1.pdf#page=11

Giarrizzo, T., Andrade, M.C., Schmid, K., Winemiller, K.O., Ferreira, M., Pegado, T., Chelazzi, D., Cincinelli, A., Fearnside, P.M., 2019. Amazonia: the new frontier for plastic pollution. Frontiers in Ecology and the Environment. 17, 309-310.

Wu, P., Huang, J., Zheng, Y., Yang, Y., Zhang, Y., He, F., Chen, H., Quan, G., Yan, J., Li, T., Gao, B., 2019. Environmental occurrences, fate, and impacts of microplastics. Ecotoxicology and Environmental Safety. 184, 109612.