Por Ana Paula Bertão

Apesar de haver diversas espécies de moluscos no mundo, somente as espécies denominadas perlíferas que pertencem a família Pteriidae (que se reproduzem em água salgada) e Unionidae (que vivem em água doce) são capazes de realizar a produção de pérolas (Yukihira et al., 2000; Ky et al., 2019). A pérola é resultado de uma reação natural dos moluscos contra invasores externos, como areia, vermes ou parasitas.

A pérola é uma estrutura de origem orgânica, contendo fisicamente um núcleo e camadas nacaradas na periferia, depositadas de forma concêntrica. A sua estrutura química apresenta lamelas e prismas de carbonato de cálcio (92,6%) que causam a refração da luz, água (0,5 a 0,6%) e outros elementos (3%) geralmente responsáveis pela coloração da pérola, dispostos como um “sanduíche” e intermediados por um material orgânico conhecido como conchiolina (2 e 3%).

A formação natural da pérola ocorre quando um sedimento ou microrganismo penetra na inserção entre o manto e a concha, causando uma verdadeira irritação nesta região e, como proteção, o molusco produz uma camada nacarada que ficará em volta deste microrganismo ou sedimento, soldando-o na concha. Neste caso, temos a formação de uma “meia-pérola”.

A pérola verdadeira ou natural, baseia-se neste mesmo princípio. Entretanto, por alguma razão, o sedimento, microrganismos ou mesmo um pedaço celular da membrana penetra dentro do músculo ou nas gônadas (Amabis e Martho, 1947). Com isto, no interior do corpo do molusco inicia-se a formação de uma estrutura chamada de saco ou bolsa perolífera que envolverá totalmente o ser invasor (Li et al., 2018). Esta bolsa perolífera começará a depositar substâncias que irão se cristalizar formando camadas sobre o microrganismo e, desta forma, desenvolve-se a pérola (Figura 1).

Figura 1. Processo de formação de pérola nos bivalves.

Três estruturas peroladas podem ocorrer na natureza: (A) a pérola, que é um material orgânico constituído de núcleo e de camadas nacaradas que o envolvem de forma concêntrica; (B) meia-pérola, que é uma pérola que se formou soldado à concha, tendo menor valor comercial; e (C) a madrepérola, ou nácar, que é a camada mais interna da concha de um molusco. É rica em carbonato de cálcio (na forma de cristais de aragonite) e pode ser utilizada em bijuterias, como é demonstrado na Figura 2.

Figura 2. Pérolas de bivalves cultivados.

O processo de perolização dos bivalves é raro, geralmente acontece na natureza em um a cada 10.000 animais. De maneira que o tempo médio de maturação de uma pérola é em média de 3 anos.

Na aquicultura esse processo é minimizado com a técnica de introduzir nas ostras pequenas porções esféricas de madrepérola, retiradas de uma concha, com cerca de três quartos do tamanho final desejado. O cultivo precoce de pérolas envolve o plantio de um núcleo em ostras selvagens ou em moluscos. Enquanto alguns procuram impulsionar o processo natural implantando um minúsculo pedaço de manto pérola dentro da ostra, outros usam contas projetadas para criar uma pérola maior no menor período de tempo e ajudam a controlar sua forma. Cinco fatores principais são usados para definir a qualidade da pérola: tamanho, forma, cor, brilho e qualidade da superfície (Ky et al., 2019).

Foi identificado algumas linhagens destes organismos que possuem melhores qualidades genéticas associada ao processo de perolização. Estas características fazem com que as produções de moluscos se concentrem em produzir pérolas de alto brilho, com cores claras e uniformes, assim como desejado pelo mercado.

Antes de uma pérola ser colocada em uma peça de joalharia, ela passa por processos de seleção rigorosos. Os lotes combinados são separados em pares perfeitos para criar, por exemplo, um par de brincos ou um grupo bem combinado, que serão cuidadosamente organizados para formar um cordão sutilmente graduado. Uma a uma, cada pérola é perfurada individualmente e amarrada em mechas temporárias, chamadas hanks soltas, que são vendidos em leilões com alto valor comercial.

As joias produzidas com pérolas de água salgada são supervalorizadas, principalmente por serem mais raras, por outro lado, as pérolas de água doce possuem um custo mais baixo, porém, possuem tanta qualidade e beleza quanto as de água salgada. As pérolas naturais podem possuir diferentes cores e brilhos conforme ilustrado na figura 3.

Figura 3. Cores e brulhos das pérolas naturais.

Referências

AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. BIOLOGIA: BIOLOGIA DOS ORGANISMOS.    1947.

 

KY, C.-L.  et al. The pearl oyster (Pinctada margaritifera) aquaculture in French Polynesia and the indirect impact of long-distance transfers and collection-culture site combinations on pearl quality traits. Aquaculture reports, v. 13, p. 100182,  2019. ISSN 2352-5134. 

 

LI, J.; WU, X.; BAI, Z. Freshwater pearl culture. Aquaculture in China: Success Stories and Modern Trends, p. 185-196,  2018.  

 

YUKIHIRA, H.; LUCAS, J.; KLUMPP, D. Comparative effects of temperature on suspension feeding and energy budgets of the pearl oysters Pinctada margaritifera and P. maxima. Marine Ecology Progress Series, v. 195, p. 179-188,  2000. ISSN 0171-8630.