Respostas adaptativas de peixes a alterações ambientais

Por Thayzi O. Zeni

Publicado em 11/02/2016

Em qualquer meio onde existam variações ambientais, as adaptações surgem como uma alternativa para assegurar a sobrevivência, a reprodução, o desenvolvimento, a distribuição geográfica e a diversificação das espécies (Peres-Neto, 1999; Randall, 2006).

Muitas das pesquisas que abordam as formas de adaptação das espécies a ambientes impactados antropicamente têm utilizado organismos aquáticos como modelo de estudo. Isto porque, dentre as consequências das alterações ambientais, estão a alteração das variáveis determinantes da qualidade da água, a perda da biodiversidade aquática em função da desestruturação do ambiente físico e químico e a alteração da dinâmica natural das comunidades biológicas (Currie e Tufts, 1997; Goulart e Calistto, 2003).

O ambiente aquático é extremamente dinâmico e os organismos que nele vivem enfrentam alterações ambientais dificilmente enfrentadas por animais terrestres, como mudanças rápidas ou extremas de temperatura, na concentração de oxigênio dissolvido, no pH, na concentração e nos tipos de íons (Mariano, 2006). Variáveis como estas podem ocasionar estresse e reduzir a habilidade dos animais em manter sua homeostase (Mariano, op. cit.). Essas alterações ambientais são ainda mais críticas em ambientes aquáticos sobre influência de atividades antrópicas de origem biológica (lançamento de efluentes domésticos e industriais), física (lançamento de resíduos radiativos ou de detritos inertes) e/ou química (lançamento de resíduos industriais e de embarcações, por exemplo) (Santana, 2008). 

Dentre as variáveis ambientais mencionadas, a temperatura e as concentrações de oxigênio são parâmetros que afetam diretamente os processos fisiológicos de todos os organismos aquáticos (Munday et al., 2009).

A temperatura de ambientes aquáticos pode ser alterada de maneira aguda, como por exemplo, quando indústrias despejam água aquecida ou resfriada em rios e lagos. Também pode ser alterada a longo prazo, como é o caso do aquecimento global. De acordo com os cenários projetados pelo IPCC (2007), a temperatura média global deve aumentar entre 2,3°C e 4,5°C até o ano de 2100 se comparada ao período pré-industrial.

Carneiro (2002) comenta que a construção de barragens interrompe o fluxo natural do curso d’água, acarretando em variações no regime fluvial, transformando zonas de correntezas em ambientes lênticos (Figura 1).

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Figura 1. Barragem de Itaipu, construída no Rio Paraná, entre Brasil e Paraguai.

Além dessas alterações drásticas dos padrões locais de circulação, isso também pode afetar a temperatura e, principalmente, a concentração de oxigênio dissolvido em ambientes aquáticos. Esta falta de circulação contribui para que ocorra a formação de termoclinas e oxiclinas. Fiorucci e Filho (2005) ainda comentam que a construção de represas sobre áreas de florestas podem resultar na formação de lagos com alta demanda bioquímica de oxigênio (Figura 2).

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Figura 2. Inundação da região de Sobradinho, localizado a 40 Km de Juazeiro (BA) pelo Rio São Francisco para a construção da Usina de Sobradinho. Fonte: http://www.cepa.if.usp.br/energia/energia1999/Grupo2B/Hidraulica/ambiental.htm.

Nessas represas, a grande quantidade de fitomassa inundada, ao se decompor, gera elevados déficits de oxigênio. Casagrande (2006) comenta que reduções na concentração de oxigênio dissolvido em ambientes aquáticos podem ocorrer quando quantidades significativas de matéria orgânica são incorporadas a eles. Essa situação ocorre normalmente com o lançamento de esgotos domésticos e de efluentes industriais ricos em matéria orgânica nos corpos d’água (Figura 3).

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Figura 3. Lançamento de esgotos domésticos em corpos d’água sem qualquer tipo de tratamento.

Além de todos esses impactos pode também ocorrer o rompimento de barragens, como o ocorrido em Mariana (MG) no inicio de novembro deste ano. Esta não era utilizada na produção de energia, mas sim para armazenar lama resultante do rejeito da produção de minério de ferro. O seu rompimento formou uma enxurrada de lama que inundou várias casas e chegou ao rio Doce, matando vários peixes.

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Figura 4. Peixes do rio Doce, em Governador Valadares (MG), mortos após a chegada da lama. Fonte: http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2015/11/13/rio-doce-precisa-de-acoes-para-garantir-sobrevida-e-tera-danos-por-decadas.htm

Desta forma, seja por causas naturais ou antropogênicas, os ambientes aquáticos estão, cada vez mais, sendo submetidos a processos que levam à alterações dos padrões locais ou regionais de temperatura e de oxigênio dissolvido.

Nessa linha de pesquisa, na qual organismos aquáticos são afetados por alterações ambientais diversos grupos tem sido alvo de estudo, tais como: microalgas (Morais e Costa, 2008; Johnson et al., 2009; Lohbeck et al., 2012), macroinvertebrados (Johnson et al., 2009); anêmonas (Black et al., 1995; Choresh et al., 2001; Goldstone, 2008), moluscos bivalves (Clegg et al., 1998; Buckley et al., 2001; Lacoste et al, 2001; Brown et al., 2004; Fabbri et al., 2008; Cho e Jeong, 2012), gastrópodes (Tomanek, 2002; Tomanek e Sanford, 2003), crustáceos (Ravaux et al., 2003; Ravaux et al., 2007; Fernandes, 2010) e peixes (Iwama et al., 1998; Iwama et al., 1999; Iwama et al., 2004; Breau et al., 2007; Johnson et al., 2009).

Segundo Al-sabti e Metcalfe (1995), além de geralmente apresentarem interesse econômico, o uso de peixes é frequente nesse tipo de estudo pois estes apresentam respostas toxicológicas similares àquelas apresentadas pelos vertebrados superiores. Além disso, esses autores citam que os peixes indicam o potencial de exposição de populações humanas a genotóxicos químicos e também estão entre os maiores veículos de transferência de contaminantes para humanos.

REFERÊNCIAS

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