Por Fabrício Salvador Vidal

Publicado em 18 de outubro de 2018

 

O cultivo de moluscos bivalves, no panorama mundial da aquicultura é crescente (FAO, 2016) e, aliado a este crescimento, aumentam, também, os riscos relacionados à saúde desses organismos. O fato de serem animais filtradores, filtrando grandes volumes de água diariamente, faz com que se tornem vulneráveis à ação de agentes estressores existentes no ambiente.

Considerando a classificação estabelecida por Cooper (2010), o sistema imune pode ser dividido em três categorias:

  • Barreiras externas: atuam impedindo a entrada de agentes patogênicos atuando, normalmente, como uma primeira linha de defesa. Nos bivalves, as conchas constituem uma barreira física que desempenham esta função.
  • Resposta celular: consiste em uma rede de ativação celular e enzimática que atua de forma menos específica e sem memória imunológica, não produzindo anticorpos específicos de imunidade adaptativa, conferindo aos moluscos bivalves uma imunidade definida como inata ou natural desencadeada por padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs). A imunidade inata dos bivalves é constituída por células imunoefetoras denominadas hemócitos, presentes na hemolinfa. A hemolinfa constitui em um fluido semelhante ao sangue dos vertebrados que percorre um sistema circulatório aberto. A resposta imune pode ser observada a partir de mecanismos fundamentais, tais como: Fagocitose, complexo de receptores (Toll-like) de reconhecimento de PAMPs e o sistema complemento ancestral. A fagocitose consiste na primeira resposta celular contra vários patógenos e ocorre em etapas que se sucedem: a quimiotaxia consiste na primeira etapa, que constitui no movimento dos hemócitos em direção ao estímulo químico por gradiente de concentração, oferecido pelo agente infeccioso; a próxima etapa refere-se ao reconhecimento do microrganismo invasor mediante as moléculas PAMPs , este mecanismo decorre da ação de receptores específicos encontrados na membrana dos hemócitos ou disperso na hemolinfa. Estes receptores são estimulados pelos lipopolissacarídeos bacterianos (LPS) induzindo a liberação de proteínas similares ao fator de necrose tumoral (TNF) e as interleucinas (IL-1 e IL-6). A fase seguinte consiste no englobamento do agente microbiológico originando um fagossomo que, a seguir, passa por um processo de degradação intracelular. As vias de degradação como produção de peptídeos antimicrobianos (PAM), produção de enzimas hidrolíticas, produção de enzimas lisossômicas (peroxidases), produção de espécies reativas de nitrogênio (RNS) e produção de espécies reativas de oxigênio (ROS) podem ser ativadas, sendo esta última a via degradativa mais importante nos invertebrados. Ainda, segundo Marigómez et al. (2002), a função dos hemócitos pode estar relacionada, também, à remoção de metais tóxicos por intermédio de processos como fagocitose e pinocitose. Essas partículas serão transportadas para as brânquias e glândulas digestivas onde serão eliminadas.
  • Imunidade humoral: consiste em uma resposta imunológica exercida por moléculas existentes na hemolinfa dos bivalves. As aglutininas, por exemplo, estimulam a geração de proteínas que irão auxiliar na resposta imunológica. As lisinas são enzimas proteolíticas que atuam em moléculas de peptideoglicanos, essencial na estrutura da parede celular bacteriana.

O entendimento das respostas imunológicas dos bivalves irá contribuir para o reconhecimento de possíveis patógenos que possam afetar o processo produtivo desses organismos e, consequentemente, permitirá a adoção de medidas e estratégias preventivas em relação à saúde desses organismos.

 

COOPER, Max D .; HERRIN, Brantley R. Como nosso complexo sistema imunológico evoluiu ?. Nature Reviews Immunology , v. 10, n. 1, p. 2, 2010.

MARIGÓMEZ, Ionan et al. Cellular and subcellular distribution of metals in molluscs. Microscopy research and technique, v. 56, n. 5, p. 358-392, 2002.