Origem dos PCBs e a sua Interação com o Meio Ambiente

Por: Giorgi Dal Pont

Publicado em 12/12/14

           Figura capa

Bifenilas Policloradas, ou PCBs, como são popularmente conhecidos, são compostos químicos de origem antrópica que apresentam grande estabilidade, mesmo quando submetidos à variações severas de temperatura e pressão. Por esse motivo, desde sua descoberta no inicio da década de 20, os PCBs passaram a ser amplamente utilizados como aditivos em líquidos e gases isolantes. Especificamente no que tange a utilização de óleos isolantes, a adição de PCBs melhora o desempenho de características relacionadas a segurança dos equipamentos aos quais são adicionados, uma vez que conferem aumento do poder dielétrico, do ponto de fulgor, da durabilidade e reduzem a inflamabilidade do equipamento. Essa melhora teve grande relevância, principalmente, para equipamentos instalados em áreas com alto risco de incêndio como subestações prediais, veículos, trens, navios e em locais com circulação intensa de pessoas.

            Após algumas décadas de uso intenso dos PCBs, no início dos anos 60, um programa mundial de monitoramento ambiental implementado pelas Nações Unidas (ONU) demostrou que esses compostos estavam globalmente dispersos nos compartimentos ecológicos. A partir desse resultado, os PCBs foram incluídos na lista de Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) e, mais tarde, tiveram sua fabricação e utilização amplamente discutidas na Convenção de Estocolmo. Alguns anos mais tarde ficava comprovado que os sintomas (cloroacne, hiperqueratose, bronquite, edema e entorpecimento dos membros, entre outros) apresentados pela população da Ilha de Yusho, no Japão, e do loteamento de Love Canal, nos EUA, estavam relacionados a exposição crônica à PCBs .

            Em 1979 a Agência de Proteção Ambiental Americana (US-EPA) começa a tomar providências quanto a utilização dos PCBs e, em 1979, o congresso Americano aprovou uma Lei que regulamentou o uso dos PCBs. Poucos anos depois o Brasil aprovou uma Portaria Interministerial que proibiu a comercialização e o uso de PCBs em todo o seu território, sendo que os equipamentos já em operação que continham PCBs poderiam continuar a ser utilizados. Em 2005 o Decreto Federal n° 5.472 estabeleceu um prazo de 20 anos para que o banimento total dos PCBs fosse realizado. 

            Apesar dos PCBs não serem fabricados comercialmente e do descarte daquele presente em equipamentos industriais ser fortemente regulamentado, atualmente ainda existem várias fontes potenciais que podem, acidentalmente, liberar resíduos para o ambiente. Estas fontes incluem a) o uso e eliminação de produtos contendo PCBs de equipamentos fabricados antes de 1981, b) a combustão de materiais contendo PCBs, c) a reciclagem de produtos contaminados com PCBs e, d) emissões de PCB de locais destinados ao armazenamento e eliminação de resíduos. Segundo pesquisa da National Response Center Database da Agencia de Proteção Ambiental Americana (US-EPA-CG), entre 1989 e 2001, mais de 2600 vazamentos de PCBs ocorreram somente nos EUA. Isso é consequência da grande quantidade de PCBs ainda em utilização. Por exemplo, até 1998, cerca de 54 mil toneladas de PCBs ainda eram utilizados em equipamentos elétricos, evidenciando o grande risco para a ocorrência de novos acidentes.

            Os PCBs são compostos químicos complexos e, por isso, o conhecimento de suas propriedades químicas e físicas são necessárias para entender os seus mecanismos de transporte e destino no ambiente e sua toxicidade para organismos vivos. Os PCBs apresentam biodegradação no ambiente extremamente lenta. Além disso, após sua liberação no ecossistema, os PCBs podem ocorrer na atmosfera, água e no solo, devido à características químicas e físicas específicas. Especificamente na água, o processo de adsorção da molécula de PCB na matéria orgânica faz com que a partícula resultante fique mais pesada, depositando-se na camada superficial do sedimento aquático. No solo e na água, sua biodisponibilidade é fortemente influenciada pela composição física e química daqueles compartimentos, principalmente, pela presença de matéria orgânica. Nesse contexto, apesar poder estar presente no sedimento, essa interação torna a molécula de PCB menos biodisponível para flora e fauna, ou seja, apesar da molécula estar presente ela fica presa a um substrato e não é absorvida por organismos vivos.

            Essa questão relacionada a interação entre os PCBs e a matéria orgânica é especialmente relevante quando consideramos os ambientes de mangue. Os manguezais são ecossistemas que apresentam uma dinâmica com grande acumulo de matéria orgânica no seu sedimento em consequência da degradação e decantação de nutrientes de oriundos do continente.

            Além da matéria orgânica, outras características da região de mangue podem interferir diretamente nos processos de interação, biodisponibilização e ressuspensão de PCBs, como as demais características químicas e físicas do solo de origem. Essas características são influenciadas pelo tipo de sedimento de origem, pelos os movimentos hidrodinâmicos que ocorrem na coluna d’água e pela movimentação de organismos bioativos no sedimento (revolvimento do sedimento).        Dessa forma, pode-se afirmar que o conhecimento acerca das características fisiogeográficas, ecológicas e hidrológicas da região onde ocorreu a liberação de PCBs se caracteriza como uma demanda essencial para a tomada de decisão quanto as ações de recuperação e de biomonitoramento que devem ser adotados.