Parasitose em linguados cultivados em laboratório

 

Por Gisela Geraldine Castilho-Westphall

Publicado em 24/03/2015

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FIGURA 1. Paralichthys orbignyanus (linguado manteiga ou linguado vermelho. Fonte: Laboratório de piscicultura da FURG <http://www.reefcorner.org/forum/topic_m.asp?TOPIC_ID=44614>

 

Os linguados, ou peixes planos, pertencentes à ordem Pleuronectiformes, passam por profundas transformações externas e internas durante seu desenvolvimento que caracterizam verdadeiras metamorfoses, em especial durante os primeiros dois meses de vida. As larvas que são planctônicas e apresentam simetria bilateral nas primeiras semanas, aos poucos, vão crescendo mais em comprimento e altura do que em espessura, tornando-se achatadas e um dos olhos começa a migrar para o lado oposto do corpo. Junto com as modificações internas e desenvolvimento dos órgãos, a presença dos dois olhos em um só lado do corpo, identifica um pequeno peixe que acabou o processo de metamorfose; passa a ser identificado como juvenil e adquire hábitos bentônicos, deitando e nadando sobre o lado cego do corpo. No seu período de vida juvenil ou adulto, os linguados vivem junto ao fundo, geralmente enterrados ou mimetizados de acordo com o ambiente.

Por ser um animal de importância econômica, a aquicultura, como sistema de produção de alimentos de alta qualidade, é uma alternativa viável para aumentar a oferta de linguado no mercado.

Paralichthys orbignyanus (linguado manteiga ou linguado vermelho) é uma espécie costeira e estuarina. As larvas e juvenis utilizam o estuário e as baías rasas como berçários naturais, onde há riqueza de alimentos e proteção contra predadores. É encontrado desde o estado do Rio de Janeiro até o golfo de San Matías na Argentina, ocorrendo em profundidades menores que 1 até 45 metros, com maior abundância em torno dos 20 metros.

Em um cultivo de linguados, quando era realizada a manutenção e limpeza dos tanques na Estação Marinha de Aquacultura Professor Marcos Alberto Marchiori da Fundação Universidade Federal do Rio Grande, observou-se que juvenis de P. orbignyanus estavam com comportamento alterado e provavelmente alguma enfermidade havia se instalado no cultivo. Verificando-se os sinais clínicos e a análise preliminar dos peixes sob lupa, chegou-se à conclusão que se tratava de um caso de amiloodiniose (“velvety”, “rust”, “gold dust disease” ou “coral fish disease”). O agente patogênico da amiloodiniose é o dinoflagelado Amyloodinium ocellatum (Ordem Blastodinida, Família Oodinidae) (Brown, 1931).

Os dinoflagelados podem constituir importantes organismos patogênicos, representando um sério problema ao cultivo intensivo de peixes e ao aquarismo. O gênero Amyloodinium é composto por ectoparasitas de brânquias ou tegumento de muitas espécies de peixes marinhos.  É um parasita termofílico e eurialino de regiões tropicais e subtropicais, tem distribuição cosmopolita e causa também infecções em peixes de vida livre marinhos ou estuarinos. Parece virtualmente não específico na seleção do hospedeiro, infectando a maioria dos teleósteos (peixes ósseos), inclusive os de água doce se estes forem mantidos em água contaminada de baixa salinidade. Também há registro deste parasito infectando elasmobrânquios (tubarões e raias).

O ciclo de vida de Amyloodinium  ocellatum compreende três estádios: parasitário (trofonte), divisão ou multiplicação (tomonte) e infestante (dinósporo).

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FIGURA 2. Ciclo de vida do parasito Amyloodinium ocellatum. Fonte: <http://www.lib.noaa.gov/retiredsites/docaqua/reports_miscellaneous/amyloodiniumfactsheet.html>

 

Quadro Clínico

No estudo cujos resultados serão descritos a seguir, os peixes infestados pelo parasito eram juvenis com aproximadamente 120 dias após a eclosão. Eles apresentavam respiração ofegante com nítida percepção dos movimentos de abertura e fechamento da boca e dos opérculos. Os peixes buscavam se aglomerar próximos ao difusor de ar e também faziam incursões à superfície, nadando por alguns segundos paralelamente próximo à interface ar-água.

O padrão normal de pigmentação dos peixes também se alterou em função do estresse provocado pela doença. As variações foram sutis, não detectáveis macroscopicamente, ou bem pronunciadas, ocorrendo hiperpigmentação em toda a superfície corporal.

Ao se realizar uma avaliação microscópica dos animais parasitados, observou-se a presença de parasitos, principalmente em brânquias, pseudobrânquias, cavidade nasal, cavidade opercular, esôfago, faringe, nadadeiras, opérculos, pele e tecido subcutâneo, região periocular, vasos sanguíneos, tecido muscular, fígado e coração.

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FIGURA 3. Locais de maior prevalência de Amyloodinium ocellatum na superfície corporal dos juvenis analisados.

 

A maior incidência de protozoários foi observada na cavidade opercular com fixação sobre as brânquias (guelras) e nas nadadeiras, justificando a dificuldade respiratória apresentada pelos animais. Em um único arco branquial isolado e observado em microscópio, foi possível contar 269 trofontes fixados nos filamentos e nas lamelas branquiais, o que daria aproximadamente 2.152 parasitos, somente nas brânquias dos juvenis.

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FIGURA 4. Arco branquial de juvenil infestado de trofontes de Amyloodinium ocellatum. Escala: 322 µm

 

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FIGURA 5. Filamento branquial de juvenil de P. orbignyanus repleto de A. ocellatum. Lesão tecidual sob os rizóides do trofonte (círculo) onde ocorreu necrose (morte celular). Dinósporo fixado entre as lamelas branquiais (seta). HE. Escala: 20 µm.

 

Pela presença de parasitos nas brânquias, houve além de necrose (morte celular), diversas alterações celulares e teciduais (hiperplasia, hemorragia, aneurisma ou telangectasia) que fizeram com que o peixe perdesse a capacidade respiratória.

Na superfície corporal dos juvenis como as nadadeiras e a região periocular, por ter contato direto com a água, esta região esteve mais predisposta a injúrias decorrentes da ação do parasito. Além disso, a ação, do aparelho fixador do parasito, associada a uma possível injeção de substâncias líticas por ele produzidas, levou a necrose epitelial, causando intensas lesões e infecção bacteriana secundária.

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FIGURA 6. Região periocular de P. orbignyanus com parasitos A. ocellatum (círculos) fixados à epiderme. Globo ocular (seta). HE. Escala: 140 µm.

 

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FIGURA 7. Esôfago em corte transversal. Presença de parasitos A . cf. ocellatum (círculos) entre as dobras e na luz do esôfago. HE. Escala: 100 µm.

 

Quando observados em regiões internas do animal, como fígado e coração, o parasito não foi relacionado ao desenvolvimento de lesões e supôs-se que esta localização errática tenha se dado pela penetração dele na corrente sanguínea através dos ferimentos.

O estudo da distribuição e locais de infestação de A. ocellatum em juvenis de P. orbignyanus demonstrou a alta patogenicidade do protozoário, que se fixou em diversos órgãos e tecidos, acarretando danos à saúde dos peixes. Isto devido à ação destrutiva do trofonte sobre os tecidos causando, por exemplo, necrose, hiperplasia e hemorragia. Entretanto, observou-se com maior frequência, dinoflagelados em brânquia, cavidade opercular, faringe, nadadeiras, epiderme, pseudobrânquias e rastros branquiais; provocando, nestes locais, um quadro lesional mais intenso.

A obtenção do conhecimento, com relação às patogenias causadas aos peixes pelo protozoário A. ocellatum, reafirma a necessidade de um rígido controle dos sistemas de cultivos, implantando medidas profiláticas e, quando necessário, curativas para evitar epizootias que ocasionem graves perdas produtivas.

*Agradecimento ao Prof. Dr. João Carlos Brahm Cousin pela orientação na execução deste estudo.