O futuro depende da aquicultura em águas abertas

Por Diego Junqueira Stevanato

Publicado em 20/03/2015

 

Para atendermos a crescente demanda mundial de peixes e frutos do mar o mundo terá que inclinar-se mais e mais para tecnologias aquícolas. Neste contexto, referente especificamente à aquicultura “offshore”, que envolve a prática de cultivo de organismos aquáticos várias milhas da costa, águas que costumam possuir altas taxas de saturação de oxigênio (geralmente próximo a 100%) e baixas oscilações na temperatura.

Entendendo o cenário mundial aquícola marinho

No mundo, o tanque-rede é o sistema mais utilizado nas criações de peixes, pois oferece altos índices para o cultivo, flexibilidade de expansão e considerável empregabilidade. Gradualmente, a tecnologia aplicada a esse modelo produtivo sofre mudanças, tanto em material de confecção como na capacidade de suporte, já existindo tanques com volume superior a 22.000 m³.

Os ambientes marinhos oferecem um enorme potencial para produção aquícola, possibilitam a produção dinâmica, de baixo risco de eutrofização. Na prática, países como Irlanda, Noruega e Reino Unido produzem salmão em cativeiro desde 1960. A grande demanda e a facilidade de ampliação despertou interesse em investidores, resultando em uma tempestade de empreendimentos diluídos em outros países afora, como no caso um dos principais produtores da espécie, o Chile. Antes mesmo da produção de salmonídeos, nos primórdios da antiguidade oriental, o Japão, a China e a Coréia já exploravam águas intercostais para produção de diversas espécies de peixes, moluscos e macroalgas.

Modelos tecnológicos aplicados à produção de organismos marinhos

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Figura 1 – Sistema semi-submerso de tanque-rede instalado 13 km da costa do Panamá (esquerda) e submerso (direita). Esses modelos possibilitam a criação de peixes em áreas de intenso sismo submarino (Foto: Brian Skerry).

 

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Figura 2 – Tanque-rede de alta potencial produtivo, nas etapas de instalação (esquerda), abastecimento (meio) e em operação (direita).

 

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Figura 3 – Sistema de engorda de ostras no modelo de cultivo offshore – flutuantes instalados 2 milhas náuticas da costa de Portugal.

 

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Figura 4 – Cultivadores de algas na China, utilizando nutrientes liberados pela produção terrestres e lançados em meio aquático marinho (Foto: George Steinmetz).

 

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Figura 5 – Tanque-rede em fase de instalação no modelo offshore.

Grandes produtoras do modelo offshore disponibilizam gratuitamente todo pacote tecnológico empregado em seus sistemas de produção, e muitas vezes, em seus sites possuem todos os dados gerados de análises de água, valores nutritivos de insumos e da produção bem como a taxas de CO2 produzido para todos os kg de proteína produzido.

Cenário brasileiro de cultivo de organismos marinhos

Segundo a FAO, a produção de peixes é uma excelente oportunidade para países em mercados emergentes. No Brasil, o desenvolvimento para esse tipo de tecnologia ainda apresenta um quota de desafios. Apesar de o país possuir áreas costeiras protegidas e muitas vezes já ocupadas por empreendimentos imobiliários, pouco se sabe por parte do setor aquícola propostas de criação de peixes em sistemas de cultivo marinho.

A grande restrição do crescimento desse setor no Brasil vem pela combinação burocrática e limitante por parte governamental e empresarial, que se limitam empregando tecnologias ainda atrasadas ou geralmente adaptáveis aos padrões brasileiros de cultivo. Um exemplo clássico é a vasta utilização de resíduos da produção avícola na produção de insumos para aquicultura. Estes, por sua vez, possuem baixo teor nutricional e são amplamente impactantes para o ambiente.

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Figura 6 – Sistema de cultivo de ostras aplicado a regiões do nordeste brasileiro.

Muitos investidores no país visam o setor aquícola, por exemplo, a instalação de tanques-rede em parques aquícolas, pelo baixo custo de instalação e rápido retorno de capital investido. Em contra partida, o sistema encontra-se em saturação, as áreas disponíveis para novos empreendimentos ou ampliação dos já instalados estão cada vez mais raras ou limitadas por parte burocrática e ambiental.

Uma alternativa é a exploração do cenário marinho para cultivo de organismos aquáticos. Porém, os custos para instalação de sistemas aquícolas marinhos em sistema offshore ainda são preocupações consideráveis a se enfrentar.  Os primeiros passos a serem dados é a exploração das regiões costeiras para instalação de empreendimentos aquícolas. O Brasil possui potencial para o cultivo de ostras, mexilhão, vieiras, macroalgas, camarão e peixes. A extensa área costeira é um diferencial que possibilita um “up” no cenário aquícola brasileiro.