PRESENÇA DE LARVAS DE OSTRA DO MANGUE EM ÁGUAS DA BAÍA DE GUARATUBA-PR

Ostras do gênero Crassostrea são moluscos bivalves, ou seja, possuem uma concha dividida em duas partes. Habitam águas costeiras rasas e ocorrem desde a faixa equatorial até zonas de frio moderado. As espécies deste gênero são consideradas eurihalinas (suportam grande variação de salinidade), euritérmicas (suportam grande variação de temperatura), desovam intermitentemente ao longo do ano e são adaptadas a ambientes estuarinos. No Brasil, as espécies de ostras deste gênero são popularmente conhecidas como ostras do mangue.

O ciclo reprodutivo da ostra do mangue é influenciado por fatores endógenos e exógenos e envolve gametogênese, desenvolvimento larval, fixação e metamorfose. Entre as fases de desenvolvimento larval (trocófora, larva D, véliger e pedivéliger), é na fase pedivéliger que a larva sofre metamorfose, tornando-se bentônica e recebendo a denominação de semente (Figura 1). Quando em sua forma séssil (semente), o substrato onde ela se fixa determina seu padrão de crescimento e a morfologia externa da concha da ostra. Esta variação morfológica, por outro lado, dificulta a confirmação da identidade (espécie) da ostra só a partir de observação visual.

 Fig. 1

Figura 1. Desenvolvimento larval de ostras Crassostrea. Adaptado de http://www.francenaissain.com/en/our-production-facilities/the-oyster-life-cycle/

 

O conhecimento do ciclo de vida e da abundância larval no plâncton, por sua vez, são fundamentais para a implantação de medidas que visem a redução do grau de exploração dos bancos naturais a que as ostras são submetidas, como no caso do uso de coletores de sementes.

Entretanto, uma das limitações ao estudo larval na natureza está relacionada à dificuldade de diferenciação morfológica entre as espécies existentes, o que, não raro, exige o uso de técnicas de microscopia eletrônica, tornando a sua aplicação muitas vezes inviável.  Por este motivo, métodos de detecção molecular (pela pesquisa de DNA) de larvas de moluscos têm sido desenvolvidos para contornar essas limitações metodológicas e conferir ao processamento de amostras maior especificidade e sensibilidade. 

Para estudar a presença de larvas do gênero Crassostrea na baía de Guaratuba, litoral sul do Brasil, pesquisadores do GIA identificaram as larvas em nível específico por meio de biologia molecular, além de fazer a identificação visual e contagem das larvas pelo uso de um microscópio de luz.

 

Área de estudo

Os estudos foram realizados na baía de Guaratuba (25°52’S; 48°39’W, litoral paranaense, costa Sul do Brasil), que faz parte do bioma Mata Atlântica. Os pontos amostrais foram definidos com base na sua proximidade com importantes bancos naturais de ostra localizados na Ilha da Sepultura (25°51,154″S 048°36,481″W) e nas regiões do Parati (25°47,866″S 048°36,447″W) e de Cabaraquara (25°49’59,8″S 048°34’41,6″W) (Figura 2).

 Fig. 2

Figura 2. Pontos de coleta de plâncton em bancos de ostras na baía de Guaratuba, Paraná.

Coleta das larvas de ostras no plâncton

Com auxílio de uma moto bomba e um filtro grande em formato de coador de café (rede de coleta de plâncton), quinzenalmente 1.000 Litros de água eram bombeados e todos os organismos retidos no filtro, com tamanho mínimo de 65 µm, eram coletados (Figura 3). Entre janeiro de 2010 e abril de 2011, 32 amostras de água com plâncton, foram coletadas.

 Fig. 3

Figura 3. Coleta de plâncton com moto bomba e uma rede de coleta de plâncton de 65 µm.

 

Em laboratório, as amostras eram filtradas com o auxílio de uma bomba a vácuo manual, concentrando os organismos em papel filtro Millipore® para posterior realização dos protocolos moleculares de identificação do DNA larval.

A contagem de larvas de moluscos bivalves era feita em microscópio óptico.

No momento do bombeamento de água para coleta de plâncton, em cada um dos pontos amostrais eram mensurados:  concentração de oxigênio dissolvido (em mg/L e em percentagem de saturação), temperatura, pH, salinidade e transparência. Tanto as análises de água, quanto as coletas foram realizadas no período da manhã, durante as marés enchentes e em profundidade de aproximadamente 1,0 m.

 

O que as pesquisas revelaram

Quando os três pontos foram analisados, em relação a análise de água (variáveis abióticas), foi verificado que:

  • Não houve diferença na variação de temperatura da água entre os 3 pontos de coleta.
  • Não houve diferença na variação de pH da água entre os 3 pontos de coleta.
  •  No ponto Parati havia menores concentrações de oxigênio dissolvido na água, quando comparado com os outros dois pontos.
  • No ponto Parati a água apresentava menor salinidade, quando comparada aos outros dois pontos e o ponto Cabaraquara foi o com maior salinidade.
  • As águas no ponto Ilha da Sepultura eram as mais transparentes que nos demais pontos.

 

Presença de larvas no plâncton

Em 92 amostras coletadas, havia 9.336 larvas de moluscos bivalves, ou seja, aproximadamente 101 larvas de moluscos bivalves em 1.000 Litros de água da Baía de Guaratuba. Entretanto, a quantidade de larvas em cada ponto foi bastante variável. Exemplo disto, foi que em uma única coleta no ponto Cabaraquara, havia mais de 1.600 larvas. O ponto de coleta com maior quantidade de larvas foi o P1-Cabaraquara, onde se concentram vários cultivos de ostras de moradores da região (Figura 4).

 Fig. 4

Figura 4. Percentual de larvas de moluscos bivalves na água filtrada em cada um dos pontos de coleta.

 

Os meses de maior prevalência de larvas de moluscos bivalves em cada um dos pontos de coleta foram:

  • P1 – Cabaraquara: fevereiro, abril/2010 e de setembro/2010 a fevereiro/2011.
  • P2 – Ilha da Sepultura: março/2010 e de outubro/2010 a janeiro/2011.
  • P3 – Parati: abril e julho/ 2010, de setembro/2010 a dezembro/2010 e de fevereiro e abril/2011 (Figura 5).

 

 Fig. 5

Figura 5. Distribuição temporal de larvas de moluscos bivalves. As quantidades apresentadas correspondem ao volume total bombeado mensalmente (1.000 L). A) Amostras de plâncton coletadas em três pontos da baía de Guaratuba-PR. B) Amostras de plâncton coletadas no ponto Parati.

 

As pesquisas também revelaram, que a variação na quantidade de larvas (LBM) em cada um dos pontos de coleta pode ter sido influenciada pelas concentrações de oxigênio dissolvido (DO mg/L), pH, saturação de oxigênio dissolvido (DO %), nesta ordem, e em menor grau pela salinidade e, menos ainda, pela temperatura (°C) e transparência da água (cm) (Figura 6).

 Fig. 6

Figura 6. Representação gráfica da análise de componentes principais entre a quantidade de larvas de moluscos bivalves no plâncton e as variáveis abióticas mensuradas nos pontos de coleta, durante o período de estudo. O grupamento formado pelas variáveis de maior correlação está circundado. DO=oxigênio dissolvido; LBM=larvas de moluscos bivalves.

 

Entre as amostras analisadas havia maior prevalência de larvas de ostras do gênero Crassostrea entre os meses de setembro e março, indicando que o período reprodutivo se intensifica nas estações mais quentes do ano (primavera e verão).

 

Portanto, os parâmetros ambientais são decisivos na determinação da densidade larval de moluscos bivalves no interior da baía de Guaratuba e que a dispersão de larvas ocorre principalmente nas estações mais quentes do ano.

 

Esta pesquisa faz parte da tese ECOLOGIA DA OSTRA DO MANGUE Crassostrea brasiliana  (Lamarck, 1819) EM MANGUEZAIS DA BAÍA DE GUARATUBA-PR,disponível em: http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/bitstream/handle/1884/28121/R%20-%20T%20-%20GISELA%20GERALDINE%20CASTILHO-WESTPHAL.pdf?sequence=1