Influência da temperatura no processo de muda em siris: implicações na produção de siri mole.

Por Camila Prestes dos Santos Tavares

Publicado em 06/04/2016

Os crustáceos Decapoda pertencentes à família Portunidae, popularmente conhecidos como siris, periodicamente passam pelo processo de muda ou ecdise (Figura 1), substituindo seu exoesqueleto rígido por um novo  momentaneamente flexível e macio (Hartnoll, 1971). Logo após a muda, o siri com exoesqueleto macio, comumente chamado de siri mole, tem grande valor gastronômico em várias partes do mundo (Perry et al., 2010; Fao, 2015; He, 2015).

O período de tempo compreendido entre uma muda e a subsequente é chamado de “ciclo de muda” (Freeman et al., 1987). Nesse caso, o ciclo de muda divide-se em quatro etapas: inter-muda, pré-muda, muda e pós-muda. Sendo a etapa de inter-muda a mais longa, durando em média 34 dias. O ciclo de muda é controlado por homônimos esteróides produzidos pelas glândulas antenal e do seio (Freeman e Perry, 1985; Chung, 2010), entretanto também pode ser fortemente influenciado pelos fatores exógenos, como a temperatura  (Tagatz, 1969).

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Figura 1. Processo de muda do siri (Callinectes sapidus) fotografado em laboratório durante 30 minutos. A) Ruptura do lado posterior da carapaça; B) Início da retirada da exúvia através da movimentação dos apêndices; C) Movimentação dos quelípodes e expulsão da exúvia. O siri continua a crescer, mas não está completamente túrgido. Espinhos laterais ainda não estão completamente estendidos; D) Ecdise completa, com crescimento completa e extensão dos espinhos laterais. FONTE: A.C. Young Williams.

A temperatura exerce grande influência em muitos processos de crescimento de organismos ectotérmicos, incluindo o tempo de desenvolvimento de insetos (Rodrigues, 2004), a duração de estágios de crustáceos planctônicos (Kurata, 1962), e o período de inter-muda de caranguejos e siris (Smith, 1997)

Segundo Tagatz (1968), após a realização de experimentos em condições controladas de laboratório, o pesquisador pôde concluir que os períodos de inter-muda em C. sapidus são mais curtos quando mantidos sob temperaturas mais elevadas, resultando na ocorrência de mudas precoces, e mais longas em temperaturas mais baixas, independentemente da faixa de tamanho do organismo, como pode ser observado no gráfico abaixo (Figura 2).

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 Figura 2. Influência da temperatura no período de inter-muda em siris da espécie C. sapidus de diferentes faixas de tamanho. FONTE: (Tagatz, 1968).

Em condições ideais de aclimatação, siris da espécie C. sapidus podem sobreviver em ambientes com temperaturas de até 40ºC, e suportar temperaturas abaixo de 0ºC (Tagatz, 1969).  Segundo Tagatz (1968), o período de inter-muda de siris de um determinado tamanho é geralmente mais curto no limite da temperatura máxima tolerável.

Também há muito tempo é sabido que o siri da espécie C. sapidus que vive em regiões temperadas, durante o período mais frio do ano, no inverno, para de realizar a muda (Churchill, 1919), e de acordo com Tagatz (1968) o fato parece estar associado com a baixa temperatura. A inibição da muda foi observada na Carolina do Sul e em Chesapeake Bay (Churchill, 1919), ambos nos Estado Unidos, onde durante o inverno as temperaturas médias foram abaixo de 8,9ºC. Em contraste, as temperaturas médias de inverno permaneceram acima de 8,9ºC na Flórida (Tagatz, 1968) e no Mississipi (Perry et al., 1992), onde a muda foi observada durante todo o ano.

Podemos concluir que a temperatura é um dos principais fatores exógenos que influenciam no processo de muda em siris. De modo comercial, para o sucesso da produção de siri mole, a atenção para as variáveis ambientais como a temperatura, é indispensável, pois estímulos externos tais como a baixa temperatura, podem inibir a muda influenciando diretamente na produção. 

Referências

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