Influência da salinidade da água sobre o cultivo de ostras nativas

Por Aline Horodesky

Publicado em 04/01/2016

A salinidade da água está entre os fatores abióticos que exercem maior influência na distribuição, abundância, crescimento e sobrevivência de invertebrados marinhos. No caso de moluscos bivalves, durante as fases larvais, esse fator pode afetar diretamente os processos fisiológicos, determinando a capacidade de alimentação, a duração da vida planctônica, assim como a habilidade para selecionar locais de fixação. Já em fases adultas, as variações da salinidade podem ocasionar alterações no balanço osmótico desses moluscos, acarretando em gastos energéticos para reajustar sua concentração osmótica.

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Fig. 1: Cultivo de ostras sofrendo diretamente influência de variações da salinidade da água.

Moluscos bivalves do gênero Crassostrea são considerados eurihalinos, adaptados ao ambiente estuarino de turbidez elevada, devido à presença de uma câmara promial no lado direito do corpo que inverte a movimentação da água corrente exalante. Desta forma, são capazes de habitar diferentes ambientes, sobretudo estuários e baías, onde há interação entre a água salgada e doce ocorrendo grandes variações de salinidade. Os estuários são propícios à ostreicultura, apresentando áreas protegidas, com grande aporte de matéria orgânica e alta produtividade primária.

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Fig. 2: Ambientes (baías e estuários) propícios para cultivo de ostras.

Em cultivos de ostras, a salinidade é um dos fatores mais monitorados durante todo o período de criação. No Brasil, as regiões do estuário que apresentam salinidades mais baixas (entrada de água doce), apresentam um maior crescimento das ostras; e nas regiões com salinidades mais altas (saídas dos estuários) são registrados maiores números de larvas e as fixações larvais são contínuas.

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Fig. 3: Monitoramento da salinidade da água em cultivos de ostras.

Alguns trabalhos realizados por pesquisadores concluem que ostras da espécie C. brasiliana são capazes de sobreviver a salinidades entre 8 UPS e 34 UPS, contudo desenvolvem-se melhor em salinidades variando de 15 a 25 UPS. Já, a ostra do mangue C. rhizophorae, por exemplo, é adaptada a sobreviver a exposições extremas de salinidade, entre 0 UPS durante as marés de períodos chuvosos e 40 UPS em marés cheias de períodos secos, entretanto, a faixa mais comum de seu habitat é entre 7,2 e 28,8 UPS.

Essa capacidade de sobrevivência das ostras a grandes variações de salinidade se deve a capacidade de osmoconformação, isto é, elas mantêm as concentrações de seus fluídos corpóreos equivalentes às variações no meio. Portanto, são capazes de manter seus fluídos isosmóticos à água do mar, e não precisam gastar energia para manter suas concentrações diferentes do ambiente. Porém, apesar dessa ampla tolerância das ostras à salinidade, dependendo da duração das variações e dos extremos dos valores de salinidade, podem ocorrer alterações drásticas relacionadas ao crescimento e a sobrevivência desses animais no cultivo.

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