EXTRATIVISMO X CULTIVO COMERCIAL DO SIRI AZUL

Por Aline Horodesky

Publicado em 09/09/14

Uma das alternativas a se considerar, quando se pensa na sustentabilidade da exploração de espécies marinhas, é a substituição gradual do extrativismo pelo cultivo comercial dessas espécies. Nesse contexto, um crustáceo que desponta com grande potencial para a maricultura é o siri.

Os crustáceos decápodes da família Portunidae, infraordem Brachyura, do gênero Callinectes (popularmente conhecidos como siris azuis) (Figura 1) habitam regiões costeiras e são considerados importantes recursos pesqueiros em diversos países, sendo que o principal meio de obtenção dessas espécies é através da pesca extrativista.

Figura  1

Figura 1. Pesca do siri azul. (Fonte: Mesquita, 2014)

Os siris que habitam a costa brasileira são importantes recursos pesqueiros, principalmente para uma parcela mais carente da população de pescadores. Isso porque a pesca de siris não demanda equipamentos sofisticados, nem grandes embarcações ou altos investimentos de capital.

Os petrechos comumente usados na captura do siri são os jererês (puçás), o espinhel de iscas e os covos iscados. No caso dos jererês e dos covos, embora esteja definido um tamanho mínimo de captura para a espécie (LC=120 mm), não existe ainda definição do tamanho de malha ideal para que esses equipamentos não capturem os juvenis da espécie (Figura 2).

Figura 2

Figura 2. Armadilhas para captura do siri azul. (Fonte: NOAA, 2008)

Embora no Brasil ainda não se realize o cultivo de siris, em outras partes do mundo esta é uma prática muito comum. Na China, por exemplo, o cultivo de siris do gênero Scylla é praticado há mais de 100 anos.

Porém, nesse caso, na maioria das vezes o fornecimento de formas jovens que são utilizadas nos cultivos ainda é feito a partir de animais capturados na natureza. Os cultivos realizados na Ásia esbarraram neste obstáculo. Conforme a demanda por animais começou a aumentar, rapidamente foram sentidos os sinais clássicos da exaustão dos estoques naturais: redução do número de animais na população e diminuição do tamanho médio dos siris capturados.

Assim, a ideia de se substituir o extrativismo pelo cultivo comercial só passará a ser de fato sustentável a partir do momento em que os animais não forem mais provenientes dos estoques naturais. Caso contrário, o que se estaria fomentando não seria nada mais que a transferência da pressão de captura, que anteriormente era exercida sobre as populações adultas, para os indivíduos jovens, o que aceleraria o estado de esgotamento dos estoques naturais (Figura 3).

Figura 3

Figura 3. Jovem e adulto do siri azul (Callinectes sp.). (Fonte: GIA)

Essa constatação e o crescente aumento da demanda pela carne de siri fez com que se iniciassem os estudos para o domínio das técnicas de larvicultura, tanto visando o repovoamento dos estoques naturais de siris como também para abastecimento de empreendimentos aquícolas com fins comerciais.

Os preços que os siris atingem no mercado internacional dependem basicamente da forma de comercialização e do tamanho dos animais. Eles podem ser comercializados vivos, inteiros e congelados, com a casca mole (siri mole) ou então na forma de carne beneficiada.

No estado do Paraná, o extrativismo de siris com fins comerciais envolve uma série de espécies, entre elas o siri azul (C. sapidus) (Figura 4), o siri remador (Ovalipes trimaculatus), o siri chita (Arenaeus cribrarius), o siri de mangue (Callinectes exasperatus), o siri nema (C. bocourti), o siri de coroa (C. danae), o siri tinga (C. ornatus), o siri vermelho (Cronius ruber) e o siri canela, também chamado de siri boia (Portunus spinimanus).

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Figura 4. Espécime de siri azul (Callinectes sp.). (Fonte: GIA)

Neste contexto, a primeira etapa de um processo de desenvolvimento de tecnologias para cultivo de siri é a avaliação do potencial técnico e biológico que estas espécies possuem para o cultivo comercial e a seleção da(s) mais apta(s) para este fim. Somente desta forma, será possível se desenvolver tecnologias para o cultivo de siris em escala comercial em bases técnica e ambientalmente sólidas.

A partir disso, o Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais, em parceria com o CNPQ, iniciará um estudo para avaliar a viabilidade do cultivo de espécies de siris nativas do litoral paranaense objetivando desenvolver tecnologias que permitam a manutenção e a engorda desses animais em condições de cultivo em larga escala (mais informações: https://gia.org.br/legado/22-trabalhos-t%C3%A9cnicos/162-biologia-e-desenvolvimento-de-tecnologia-para-o-cultivo-de-siris-de-interesse-comercial-no-litoral-paranaense ).

Referências consultadas

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Lima, R. E. & Negrelle, R. R. B. 1998. Meio Ambiente e Desenvolvimento no litoral do Paraná: Diagnóstico. Editora da UFPR, Curitiba, 266p.

Maya De La Cruz, E., Chan-Vadillo, T.A., Gómez-Mendoza, G. y Arzola-Gonzáles, J.F. 2007. Proceso Productivo de Jaiba Suave (Callinectes Sapidus) En Ciudad del Carmen Campeche. Vol. 3 No. 4 P 16 -19.

Melo, G.A.S. 1996. Manual de Identificação dos Brachyura (caranguejos e siris) do Litoral Brasileiro. Plêiade/FAPESP, São Paulo, Brasil. 604pp.

Mesquita, J. L. 2014. APA e ESEC de Guaraqueçaba, Unidades de Conservação marinhas do norte do Paraná. In: http://marsemfim.com.br/apa-e-esec-de-guraquecaba/#.VA9zT_ldXeD. Disponível em: 08/09/2014.

Narchi, W. 1973. Crustáceos. São Paulo: EDUSP. 116p.

NOAA. 2008. Commerce Secretary Determines Blue Crab Disaster in Chesapeake Bay. In: http://www.noaanews.noaa.gov/stories2008/20080923_bluecrab.html. Disponível em: 08/09/2014.

Scharam, F. R. 1986. Crustacea. New York: Oxford University Press, 606p.