Por Camila Prestes Tavares

Publicado em 03 de outubro de 2018

 

O piolho do mar (Lepeophtheirus salmonis: também conhecido como sea lice ou salmon lice) é um copépodo ectoparasito que causa infestação em salmonídeos selvagens e cultivados (principalmente do gênero Salmo, Salvelinus e Oncorhynchus) (Figura 1). A infestação de piolho do mar é considerada o maior problema nas fazendas de cultivo do salmão do Atlântico (Salmo salar), pois tem gerado perdas de milhões de dólares anualmente. A Marine Harvest, maior produtora de salmão na Noruega, diz que devido às infestações de piolho do mar, a empresa está perdendo cerca de 1.500 toneladas de peixe por ano, das quase 40.000 toneladas produzidas.

Figura 1. Salmão selvagem com parasita Lepeophtheirus salmonis aderido. FONTE: https://www.thetimes.co.uk

Além das perdas econômicas do produtor, as infestações de piolho do mar têm afetado diretamente os preços do salmão no mercado. Atualmente, os preços do salmão subiram para níveis recordes, pois a produção ainda está se recuperando dos grandes eventos de mortalidade que ocorreram em 2016, quando os estoques de salmão em todo o mundo, principalmente na Noruega, foram devastados pelo parasita. Porém, a demanda dos consumidores por peixes só aumentou.

  1. salmonis parasita os peixes e se alimenta do muco, tecido e sangue, causando feridas. As lesões na pele podem dificultar a manutenção do equilíbrio osmótico e comprometer o sistema imunológico do animal, aumentando a vulnerabilidade a infecções secundárias. Se as lesões não levarem a morte, o estresse criado pela infecção poderá reduzir o forrageamento, a conversão alimentar e a taxa de crescimento.

O piolho do mar tem um ciclo de vida direto (ou seja, um único hospedeiro) com oito estágios de vida (Figura 2). A fêmea adulta libera os ovos e os náuplios eclodem diretamente na coluna de água. Esses náuplios não conseguem nadar direcionalmente contra a corrente da água, mas flutuam e têm a capacidade de ajustar sua profundidade vertical na coluna de água. Após 2 a 14 dias, dependendo da temperatura da água, os náuplios mudam para o estágio de copépodito. Quando os copépoditos encontram um hospedeiro, eles mudam para o estágio de chalimus, nesta fase ele se liga ao hospedeiro por meio de um filamento frontal que perfura a epiderme. O chalimus passa por dois estágios que são fixados ao peixe antes de se tornar um pré-adulto ou móvel e então podem se mover pela superfície do peixe e nadar na coluna de água (Figura 3). As fêmeas podem produzir de 300 a 500 ovos por vez, com 5 a 8 crias por ano. Demora cerca de 40 a 50 dias para crescer a partir do estágio larval para um adulto reprodutivo, por isso, se as condições são adequadas para larvas encontrarem um hospedeiro, há potencial para o rápido crescimento populacional.

Figura 2. Esquema do ciclo de vida de Lepeophtheirus salmonis. FONTE: Marine Institute

Figura 3. Imagem de uma fêmea (acima) e um macho adulto (abaixo) de Lepeophtheirus salmonis. FONTE: Sea lice Research Centre.

Inúmeros cientistas e piscicultores estão se juntando para desenvolver novas tecnologias e métodos eficazes para melhorar o controle dos piolhos do mar. Existem diversos métodos sendo implementados: o uso de tratamentos químicos, como banhos de peróxido de hidrogênio; os choques de temperatura e salinidade e o uso de antibióticos. Porém, esses métodos apresentam desafios a ser superados: o uso de tratamentos químicos afeta o meio ambiente, pois contamina a água e os animais que vivem nas regiões adjacentes aos cultivos; o uso de água doce e morna é inviabilizado pelas grandes quantidades de água aquecida que são necessárias; e o uso de antibióticos pode resultar na resistência do parasita a essas substâncias. Os problemas dos atuais métodos de tratamento estimularam a procura de abordagens mais tecnológicas.

Os pesquisadores Howard Browman, David Fields e outros colaboradores, estudando os sinais sensoriais do piolho, desenvolveram armadilhas capazes de capturar os piolhos do mar do sistema de cultivo, monitorar sua abundância na coluna de água e removê-los da área de cultivo, reduzindo assim as infestações no salmão (Figura 4). Como os náuplios são atraídos pela luz, luzes subaquáticas de LED foram adicionadas na armadilha para atrair os piolhos do mar e filtrá-las da coluna de água (Ver vídeo 1). As armadilhas são colocadas nos tanques-rede de cultivo de salmão e os piolhos depois de entrarem na armadilha, não conseguem sair, sendo facilmente retirados da água. Além de ser excelentes ferramentas para retirar os parasitas, é possível monitorar remotamente as cargas de L. salmonis em vários locais.

Figura 4. Ilustração de uma armadilha desenvolvida para capturar piolhos do mar em sistemas de cultivo de salmão. FONTE: Eker Design.

Além das armadilhas, há estudos para utilização do cultivo multitrófico integrado com moluscos bivalves, a reprodução seletiva de cepas de salmão resistentes aos piolhos do mar e desenvolvimento de alimentos imunoestimuladores. À medida que a indústria busca a inovação contínua, muitos deles ainda estão em fase de desenvolvimento (Ver vídeo 2), mas espera-se que com o tempo eles possam ser utilizados e futuramente contribuir para a estabilização do preço do salmão no prato dos consumidores.

 

Referências:

Hamre LA, Eichner C, Caipang CMA, Dalvin ST, Bron JE, et al. (2013) O ciclo de vida do salmão- piolho Lepeophtheirus salmonis (Copepoda: Caligidae) tem apenas dois estágios de Chalimus. PLoS ONE 8 (9): e73539. doi: 10.1371 / journal.pone.0073539

Heuch PA, Nordhagen JR, Schram TA (2000) Produção de ovos no piolho do salmão [ Lepeophtheirus salmonis (Krøyer)] em relação à origem e temperatura da água. Aquaculture Research 2000; 31: 805-814. doi: 10.1046 / j.1365-2109.2000.00512.x

Schram TA (1993) Descrições suplementares dos estágios de desenvolvimento de Lepeophtheirus salmonis (Krøyer, 1837) (Copepoda: Caligidae). Em: GA BoxshallD. Defaye. Patógenos de peixes selvagens e de criação: piolhos do mar. Nova Iorque: Ellis Horwood. pp. 30-47

Fields DM, Skiftesvik AB e Browman HI (2017) Behavioural responses of infective-stage copepodids of the salmon louse (Lepeophtheirus salmonis, Copepoda:Caligidae) to host-related sensory cues. Fish Disease; 41:875–884.

https://www.bbc.co.uk/news/uk-scotland-38966188

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38934131

http://fishlarvae.org/equipment-techniques/salmon-lice-trap-prototypes/

http://www.dfo-mpo.gc.ca/science/publications/article/2016/09-14-16-eng.html