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Por: Giorgi Dal Pont

Publicado em 16/06/2016

 

Considerando que o bem-estar de um indivíduo é reflexo do sucesso ou fracasso das suas tentativas de adaptação às condições ambientais em que vive, pode-se organizar a avaliação do grau de bem-estar de um animal em um sistema produtivo por meio de três possibilidades:

(1) o animal possui uma adaptação que não apresenta mais uma função significativa em seu ambiente atual;

(2) o ambiente oferece ao animal um desafio para o qual ele não tem nenhuma forma de adaptação;

(3) o animal tem uma adaptação apropriada ao seu ambiente natural, mas tal adaptação se torna inadequada.

 Utilizando essa organização como base, um modelo para facilitar a representação dos vários conceitos relevantes ao bem-estar de peixes durante a criação em sistemas produtivos é apresentado na Figura 1. Tal representação acomoda um raciocínio de base, que pode ser detalhado para cada sistema produtivo e espécie de peixe em particular. Por exemplo, pode-se estudar a densidade de lotação de acordo com esse modelo. Existem evidências empíricas, provenientes de uma gama de indicadores de bem-estar, que o salmão do Atlântico (Salmo salar) em tanques marinhos não sofre efeitos adversos em densidades de até 22 kg/m3. Entretanto, ao se ultrapassar essa densidade existe uma correlação negativa entre densidade de lotação e indicadores de bem-estar.

Desta forma, a manutenção dos salmões em densidades de até 22 kg/m3 seria enquadrada na área B da Figura 1, enquanto densidades superiores seriam fatores tipo D. São exemplos de fatores para as diferentes áreas propostas na Figura 1: (i) área A = migração, territorialidade, evitação de predadores, certas estratégias reprodutivas; (ii) área B = adaptações a flutuações de temperatura, salinidade e níveis de oxigênio; ausência de sinais clínicos de doença, formação de cardumes; (iii) área C = temperatura, salinidade ou níveis de oxigênio fora das possibilidades de adaptação do peixe; presença de sinais clínicos de doença, alta mortalidade; (iv) fatores D = fluxo insuficiente de água, altas densidades de lotação, dieta inadequada, doenças endêmicas, deformidades de tecidos moles e esquelético; (v) fatores E = treinamento adequado de pessoal, planejamento de contingência, monitoramento de equipamentos, redução da densidade de lotação.

Com base nesses conceitos, o grau de bem-estar de peixes cultivados pode ser facilmente diagnosticado. Além disso, é importante salientar que um grau de bem-estar muito baixo, como em casos de doenças, crescimento lento e alta mortalidade, está associado a perdas econômicas para o produtor. Tal fato tende a provocar uma correlação positiva entre bem-estar e produtividade, ou seja, a melhoria no grau de bem-estar poderia levar ao aumento da produtividade do cultivo.

 

Figura 1

Figura 1. Estrutura proposta para a apresentação de informação relacionada ao bem-estar de peixes durante cultivo. O círculo à esquerda representa as adaptações evolutivas dos peixes ao ambiente natural e o círculo à direita o sistema produtivo. As cinco áreas A, B, C, D e E podem ser preenchidas com informações acerca das características naturais de cada espécie de peixe, suas adaptações e descritivos do sistema produtivo em questão. Em seguida, informações específicas a partir de diagnóstico de bem-estar podem ser utilizadas para incluir conteúdo adicional para as áreas B, C, D e E.