Por Tiago Leal

Publicado em 04 de setembro de 2017

 

Geralmente mediada pela atividade humana, a bioinvasão se caracteriza como um dos graves problemas ambientais da atualidade. Pode ser definida como ato de um ou mais organismos invadirem e se estabelecerem em ambientes onde não havia registros anteriores para a espécie. É subdividida em dois tipos de invasões: 1) expansões, onde os organismos se dispersam por mecanismos naturais e 2) introduções onde os organismos são introduzidos por meios antropológicos, intencionais ou não. Esse processo pode causar perda da diversidade biológica. Outro fator afetado pelos processos de bioinvasão está relacionado a atividades econômicas. Nesse contexto, podemos citar como exemplo os danos à atividade pesqueira, riscos sanitários e gastos com manutenção de turbinas em hidroelétricas (Figura 1). O impacto gerado pela introdução de espécies invasoras é tão relevante que esse processo está sendo considerado a segunda maior ameaça à perda de biodiversidade, após a destruição dos habitats, afetando diretamente as comunidades biológicas e a economia.

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Figura 1. Imagem da incrustação do mexilhão dourado (Limnoperna fortunei) em estruturas de usinas hidrelétricas. A espécie apresenta alta prolificidade aderindo-se a diversos tipos de materiais os quais são completamente obstruídos (barragens, tubulações, filtros, sistemas de drenagens, canais de irrigação, etc.). Fonte: GIA, 2017.

 

No Brasil, a introdução de organismos em ambientes aquáticos é comum há muito tempo e está intimamente relacionada aos avanços tecnológicos. Dessa forma, um histórico das bioinvasões aquáticas no Brasil pode ser dividido em três fases: 1º) do descobrimento ao final do século XIX, referente à época da colonização e tráfico de escravos e se caracteriza pela chegada de navios da Europa e da África, introduzindo o mexilhão Perna perna, o vibrião do cólera Vibrio cholerae e a ascídia Styela plicata; 2º) durante o século XX, marcada por uma intensificação do comércio marítimo e quando a água de lastro (Figura 2) passou a ser utilizada amplamente, aumentando o transporte de organismos que já era efetuado via incrustação; 3°) se inicia na última década do século XX e perdura até os dias atuais, caracterizando-se pela intensificação das pesquisas científicas e pelo aumento dos registros de espécies exóticas invasoras introduzidas no Brasil.

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Figura 2. Imagem de um navio descartando água de lastro. Processo pelo qual os tanques dos navios captam água do mar para garantir a segurança operacional e a estabilidade e que acaba possibilitando a captura e o transporte acidental de espécies exóticas.

 

No caso da fauna de água doce, o transporte de espécies de uma bacia hidrográfica para outra, mesmo que no mesmo continente, representa um dos maiores riscos para a biota aquática. As introduções de peixes, tanto de espécies nativas (sendo introduzidas em diferentes regiões) quanto espécies exóticas são, ainda, bastante comuns no Brasil e resultam da falta de informação sobre os problemas que a bioinvasão pode causar. Em estudo sobre o problema da bioinvasão no Parque Estadual do rio Doce, pesquisadores utilizaram dados dos últimos 50 anos e demonstraram que a riqueza de espécies de peixes vem declinando em todos os lagos do parque em que houve introdução de espécies exóticas. Os peixes amazônicos, por exemplo, estão entre as espécies mais introduzidas em outras bacias hidrográficas no Brasil. Na bacia do rio Paraná, espécies de hábito alimentar piscívoro são as que alcançam maior sucesso adaptativo. O tucunaré (Cichla spp.) (Figura 3), por exemplo, é um dos peixes mais comuns em introduções por ser uma espécie muito utilizada na prática da pesca esportiva. No entanto, devido sua agressividade, tamanho e hábito trófico (predador), acaba diminuindo significativamente as populações de peixes nativos.

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Figura 3. Exemplar de tucunaré (Cichla spp.). É oriundo das Bacias amazônica e Araguaia-Tocantins e podem medir 30 cm ou mais de 1 m de comprimento total. Alimentam-se principalmente de peixes e camarões e são as únicas espécies de peixes da Amazônia que perseguem a presa, o que os torna um dos peixes de maior interesse esportivo no Brasil. Fonte: http://revistapescaecompanhia.com.br/uploads/2013/03/TUCUNAS6.jpg.

 

A disseminação de espécies invasoras acaba por promover o fenômeno chamado de “homogeneização antropogênica”. Lentamente as bioinvasões vão promovendo a substituição de comunidades com elevada diversidade por comunidades monoespecíficas, compostas predominantemente por espécies invasoras, ou com diversidade reduzida. Tais alterações são exemplificadas pelas modificações dos ciclos hídricos e de nutrientes, da produtividade, da cadeia trófica e dos processos evolutivos. No ambiente marinho este efeito já é observado e embora tenha havido um aumento na diversidade estrutural e funcional causado pelas espécies exóticas invasoras e mediado pela intervenção humana, é possível observar que a composição da biota marinha de todo o mundo tem ficado mais similar.

Nos últimos onze anos, invasões biológicas receberam mais atenção no Brasil do que em qualquer outro período. O crescimento no número de pesquisas sobre invasões biológicas e a publicação de decisões legais vêm rapidamente preenchendo a lacuna existente. Porém, o que se tem observado nos últimos anos foi que os pesquisadores focaram predominantemente em aspectos básicos e acabaram negligenciando o potencial desse conhecimento para a gestão do tema, que pode ter sido refletido para que gestores realizassem ações práticas e desenvolveram marcos legais com visão desvinculada do conhecimento científico. Para sanar o problema e integralizar os aspectos teóricos e aplicados à gestão pública, ainda se faz necessária a inclusão da problemática em níveis de ensino básico e médio, em cursos profissionais, e mais oportunidades para estudos de pós-graduação na área.