A histologia como ferramenta de análise em estudos de alterações branquiais em peixes

Por Thayzi O. Zeni

Publicado em 03/11/2015

Introdução

Biomarcadores são ferramentas que possibilitam identificar a ação de uma determinada substância tóxica ou de uma condição adversa antes mesmo que sejam evidenciados danos à saúde do organismo. Eles podem ser classificados em três tipos: de exposição, de efeito e de suscetibilidade.

Através do uso de biomarcadores histológicos em peixes é possível, de forma relativamente rápida e fácil, a identificação de alterações em tecidos e órgãos, como brânquias, fígado, rins e pele. Além disso, as características histopatológicas de órgãos alvos específicos podem expressar condições ambientais e representar o tempo de exposição aos quais foram submetidos esses organismos. Por isso, este método tem sido utilizado como ferramenta na avaliação de efeitos sub-letais e crônicos da exposiçãode peixes a agentes químicos, como é o caso do petróleo e seus derivados, por exemplo.

O presente estudo teve por objetivo avaliar e discutir o uso da histopatologia branquial na avaliação de impactos ambientais causados à ictiofauna.

O trabalho foi realizado a partir de uma revisão, direcionada a avaliação de alterações histopatológicas, utilizando diferentes fontes de pesquisas e de dados. Dos 73 artigos avaliados, apenas 28 foram selecionados, pois além dos autores darem enfoque à histopatologia branquial, eles mencionavam as alterações observadas tanto no tratamento como também no controle. Os trabalhos selecionados foram agrupados nas seguintes categorias: 1) contaminação por agrotóxicos (n=5); 2) contaminação por metais (n=9); 3) contaminação por derivados de petróleo (n=4); 4) contaminação por fatores ambientais (n=7); 5) contaminação por exposição à amônia (n=2); 6) e em estudos nutricionais com vitamina C(n=1)).

Resultados e discussão

Um grande número de estudos realizados com peixes descrevem alterações histopatológicas decorrentes da exposição a agentes químicos de origem antrópica, tais como os agrotóxicos, metais pesados, petróleo e seus derivados e também derivadas de fatores ambientais diversos.

Nos artigos analisados no presente estudo foram identificadas 25 alterações histológicas branquiais, além da presença de parasitos (Figura 1). Das alterações observadas, seis podem ser consideradas as mais prevalentes (hipertrofia, hiperplasia, descolamento, fusão, aneurisma e edema), sendo estas observadas tanto em tratamentos quanto em controles (Figura 2).

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Figura 1. Fotomicrografia de brânquias em coloração HE. A) Lamela normal; B) Aneurisma; C) Deslocamento (flecha branca) e Edema (flecha preta) e; D) Fusão; E) Hiperplasia e F) Hipertrofia.

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Figura 2. Prevalência de alterações observadas nos estudos avaliados. A) Aneurisma; B) Descolamento de epitélio; C) Edema; D) Hipertrofia; E) Hiperplasia; F) Fusão.

Alterações como hiperplasia e fusão lamelar são conhecidas por serem alterações inespecíficas que podem ser causadas por uma variedade de estressores, tais como metais, amônia, fenóis, infecções por microorganismos e presença de ectoparasitos. Descolamento e edema, por sua vez, são interpretadas como uma reação inicial das brânquias ao estresse químico, o qual pode ser ocasionado por uma variedade de poluentes.  O aneurisma é uma alteração que pode estar associada a traumas físicos ou químicos. Esta pode ser observada após manejos e pode estar associada a lesões parasitárias, resíduos metabólicos ou contaminantes químicos.

Conclusão

Na pressente revisão não foram encontradas evidências de que a histologia possa ser utilizada como ferramenta para o diagnóstico exclusivo de um tipo particular de contaminação. Além disso, essa técnica, se usada isoladamente em casos de exposiçãodos organismos a misturas complexas, não demonstra ser capaz de identificar a causa pontual da lesão, ao contrário do que apontaram vários dos trabalhos analisados. Por este motivo, experimentos laboratoriais são de suma importância para identificar a relação específica de alguns tipos de agentes químicos com alterações histopatológicas. Nesse contexto, a aplicação de análises histológicas deve estar sempre associada ao uso de outras metodologias de avaliação de impacto que permitam a identificação de mais precisa dos efeitos de uma determinada substância para os peixes.