{"id":3418,"date":"2018-10-11T08:53:45","date_gmt":"2018-10-11T11:53:45","guid":{"rendered":"https:\/\/gia.org.br\/portal\/?p=3418"},"modified":"2021-04-20T12:24:07","modified_gmt":"2021-04-20T15:24:07","slug":"amyloodinium-ocellatum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gia.org.br\/portal\/amyloodinium-ocellatum\/","title":{"rendered":"Amyloodinium ocellatum"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Felipe Kacham de Carvalho e Diego Junqueira Stevanato<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ocorr\u00eancia de parasitoses em peixes \u00e9 limitante para o desenvolvimento da aquicultura em todo o mundo. Os peixes, de forma geral, s\u00e3o hospedeiros intermedi\u00e1rios de in\u00fameros parasitos, organismos esses que expoliam o hospedeiro, podendo provocar altas taxas de mortalidade quando n\u00e3o tratadas a tempo. Entre os principais problemas encontrados hoje, a amiloodiniose precisa ser encarada com mais cautela, pois traz s\u00e9rios riscos \u00e0 sa\u00fade dos peixes.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 uma doen\u00e7a causada pelo <em>Amyloodinium ocellatum<\/em> (NOGA e LEVY, 2006). Este protozo\u00e1rio \u00e9 citado como um dos mais importantes parasitos em peixes, principalmente em regi\u00f5es tropicais e subtropicais, sendo respons\u00e1vel por severas mortalidades em cria\u00e7\u00f5es de peixes marinhos (RAMOS e OLIVERA, 2001; CRUZ-LACIERDA et. al., 2004; NOGA e LEVY, 2006). \u00c9 prov\u00e1vel, assim como visto no cen\u00e1rio mundial, que no Brasil, com o desenvolvimento da piscicultura marinha, in\u00fameras doen\u00e7as e parasitoses se instalem nos sistemas de cultivo, tornando inevit\u00e1vel a presen\u00e7a da amiloodiniose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O PARASITO<\/strong><\/p>\n<p><em>Amyloodinium ocellatum<\/em> \u00e9 um ectoparasito unicelular dinoflagelado de distribui\u00e7\u00e3o cosmopolita (Lom &amp; Dykov\u00e1 1992) \u00e9 agente etiol\u00f3gico da amiloodiniose, que se localiza nas br\u00e2nquias ou no tegumento (Pavanelli et al. 2008). Apresenta ciclo trif\u00e1sico, incluindo o trofonte, est\u00e1gio parasit\u00e1rio, que se fixa no tecido e se alimenta nas br\u00e2nquias e tecido epitelial; o tomonte, est\u00e1gio reprodutivo, que realiza divis\u00f5es sobre o substrato e o est\u00e1gio infeccioso, o dinosporo, que nada livremente na \u00e1gua ao encontro de um hospedeiro suscept\u00edvel (Brown 1931, 1934, Nigrelli 1936, Brown &amp; Hovasse 1946, Cheung et al. 1981). Este dinoflagelado termof\u00edlico e eurialino foi encontrado em in\u00fameras esp\u00e9cies de peixes selvagens estuarinas e marinhas (Sinderman, 1990; Southgate, 1993), sendo um dos poucos parasitas que podem infestar quer os elasmobr\u00e2nquios (tubar\u00f5es e raias) quer os tele\u00f3steos (Lawler, 1980). Em cria\u00e7\u00e3o, a sua prolifera\u00e7\u00e3o pode originar elevada mortalidade (Needham e Wootten, 1978).<\/p>\n<p>O parasito atinge principalmente as br\u00e2nquias (Brown, 1934; Brown e Hovasse, 1946; Sinderman, 1990; Noga, 1996) e tamb\u00e9m a pele (Lom e Dykov\u00e1, 1992), esta distribui\u00e7\u00e3o pode se justificar pelo fato destes locais manterem constante contato com a \u00e1gua. Al\u00e9m disto, as br\u00e2nquias s\u00e3o revestidas por um epit\u00e9lio simples e altamente vascularizadas, propiciando boas condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento do trofonte. A ocorr\u00eancia de epidemias deste dinoflagelado tem servido de base ao estudo morfol\u00f3gico do parasito, bem como do seu ciclo biol\u00f3gico (Brown, 1934; Brown e Hovasse 1946), a estudos ultra-estruturais das c\u00e9lulas branquiais infestadas e ao maior conhecimento sobre o efeito patog\u00e9nico do parasito (Lom e Lawler, 1973 cit. Eiras, 1994).<\/p>\n<p>A taxa reprodutiva \u00e9 muito r\u00e1pida, completando seu ciclo de vida em menos de uma semana em condi\u00e7\u00f5es \u00f3timas. \u00c9 uma doen\u00e7a \u201csilenciosa\u201d porque geralmente quando o piscicultor descobre que o peixe est\u00e1 contaminado, j\u00e1 \u00e9 tarde demais e eles n\u00e3o respondem ao tratamento. Dependendo da quantidade de peixes h\u00e1 um maior manejo que aumenta o estresse e desencadeia o surto.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3423 aligncenter\" src=\"https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/2.png\" alt=\"\" width=\"331\" height=\"369\" srcset=\"https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/2.png 778w, https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/2-750x834.png 750w, https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/2-270x300.png 270w, https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/2-768x854.png 768w, https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/2-440x489.png 440w, https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/2-627x697.png 627w\" sizes=\"(max-width: 331px) 100vw, 331px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Figura 1.\u00a0<em>Amyloodinium ocellatum<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3421 aligncenter\" src=\"https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ssamyl17Lg.gif\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Figura 2. <em>Amyloodinium ocellatum <\/em>fixados em branquias de til\u00e1pias<em>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DANOS NA AQUICULTURA<\/strong><\/p>\n<p>Na aquicultura o produtor deve atentar-se aos sinais cl\u00ednicos iniciais, geralmente vis\u00edveis como as altera\u00e7\u00f5es comportamentais como perda de apetite, os peixes ficam se raspando contra objetos como paredes, fundos, canos ou qualquer outro substrato dos viveiros, aglomerados pr\u00f3ximos aos aeradores e entradas de \u00e1gua, assim como na superf\u00edcie da \u00e1gua, apresentado respira\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e nata\u00e7\u00e3o err\u00e1tica.<\/p>\n<p>Com a evolu\u00e7\u00e3o do processo patol\u00f3gico, \u00e9 poss\u00edvel observar manchas de despigmenta\u00e7\u00e3o, congest\u00e3o e eros\u00e3o das nadadeiras, hipersecre\u00e7\u00e3o mucosa, perda de escamas e dilata\u00e7\u00e3o do ventre (Paperna 1980, Reed &amp; Francis-Floyd 1994, Ramos &amp; Oliveira 2001, Carvalho-Varela 2005).<\/p>\n<p>Em casos mais severos, os peixes podem apresentar les\u00f5es, como hiperplasia das c\u00e9lulas do epit\u00e9lio respirat\u00f3rio com fus\u00e3o das lamelas seguidas de edema, levando ao descolamento das c\u00e9lulas do epit\u00e9lio respirat\u00f3rio, altera\u00e7\u00f5es degenerativas, inflama\u00e7\u00e3o, hiperplasia acompanhada de hemorragia e necrose e deple\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas mucosas (Paperna 1980, Scott 2000, Ramos &amp; Oliveira 2001, Pavanelli et al. 2008).<\/p>\n<p>O <em>A. ocellatum<\/em> tolera uma ampla faixa de temperatura e salinidade, o que dificulta o controle dessa doen\u00e7a por meio da manipula\u00e7\u00e3o de par\u00e2metros f\u00edsicos e qu\u00edmicos. A inibi\u00e7\u00e3o do crescimento do parasita pode ser alcan\u00e7ada em temperaturas abaixo de 15 \u00b0 C (Paperna, 1984) e salinidades reduzidas.\u00a0 Quando exposto a \u00e1gua doce, este parasito se desprende das br\u00e2nquias e se abriga no sedimento (NOGA et al., 1991; OVERSTREET, 1993), o que poderia explicar uma inibi\u00e7\u00e3o do <em>A. ocellatum<\/em> nos tratamentos de salinidade mais baixa e, consequentemente, as menores taxas de mortalidade registradas.<\/p>\n<p>Em sistemas abertos, a preven\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s de uma monitoriza\u00e7\u00e3o rigorosa da presen\u00e7a do parasita nos peixes durante per\u00edodos \u00f3timos de crescimento e evitando situa\u00e7\u00f5es de stress nos peixes. Quando os peixes s\u00e3o submetidos ao estresse, o parasita pode aumentar rapidamente e causar mortalidades pesadas. Manejo adequado e procedimentos rotineiros de higiene, como a elimina\u00e7\u00e3o de peixes mortos de tanques e viveiros devem ser atenciosos e podem, sem d\u00favidas, prevenir a dissemina\u00e7\u00e3o desse problema nos cultivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFERENCIAS<\/strong><\/p>\n<p>Brown E.M. 1934. On Oodinium ocellatum Brown, a parasitic dinoflagellate causing epidemic disease in marine fish. Proc. Zool. Soc. Lon. 3:583-607.<\/p>\n<p>Carvalho-Varela M. 2005. Parasitos e Parasitoses em Piscicultura. Ordem dos M\u00e9dicos Veterin\u00e1rios, Lisboa, Portugal. 580p.<\/p>\n<p>Lom J. &amp; Dykov\u00e1 I. 1992. Flagellates (Phylum Mastigophora Diesing,1866), p.25-74. In: Ibid. (Eds), Protozoan Parasites of Fishes. Elsevier Science Publishers. Aquaculture and Fisheries Science v.26. Amsterdam, Netherlands.<\/p>\n<p>Nigrelli R.F. 1936. The morphology, cytology, and life history of Oodinium ocellatum Brown, a dinoflagellate parasitic on marine fishes. Zool\u00f3gica 21:129-164.<\/p>\n<p>Tavares-Dias M. 2003. Vari\u00e1veis hematol\u00f3gicas de tele\u00f3steos brasileiros de import\u00e2ncia zoot\u00e9cnica. Tese de Doutorado em Aquicultura, Centro de Aquicultura, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal, SP. 209p.<\/p>\n<p>Scott P. 2000. Terap\u00e9utica em acuicultura, p.137-160. In: Brown L. (Ed.), Acuicultura, para Veterinarios: producci\u00f3n y cl\u00ednica de peces. Acribia, Zaragoza, Espanha.<\/p>\n<p>Paperna I. 1980. Amyloodinium ocellatum (Brown, 1931) (Dinoflagellida) infestations in cultured marine fish at Eilat, Red Sea: epizootiology and pathology. J. Fish Dis. 3:363-372.<\/p>\n<p>NOGA, E.J. e LEVY, M.G. 2006 Phylum Dinoflagellata. In: WOO, P.T.K. Fish Diseases and Disorders: Protozoan and Metazoan Infections. vol. 1, 2\u00aa ed. CAB International, Wallingford. p.16-45.<\/p>\n<p>NOGA, E.J.; SMITH, S.A.; LANDSBERG, J.H. 1991 Amyloodiniosis in cultured hybrid striped bass (Morone saxatilis x M. chrysops) in North Carolina. Journal of Aquatic Animal Health, 3: 294\u2013297.<\/p>\n<p>L AWLER, A. R., 1980. Studies on Amyloodinium ocellatum (Dinoflagellata) in Mississipi Sound: Natural and Experimental Hosts. Gulf Research Reports, 6 (4), 403-413.<\/p>\n<p>NEEDHAM, F. &amp; WOOTTEN, R., 1978. The Parasitology of Teleosts. In: Fish Pathology. Editor: Ronald J. Roberts. Bailli\u00e8re Tindall, London, U.K, 144-182.<\/p>\n<p>Lom, J. &amp; Lawler A. R., 1973 &#8211; An ultrastructural study on the mode of attachment in dinoflagellates invading gills of Cyprinodontidae. Protologica, 9:293-309.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Felipe Kacham de Carvalho e Diego Junqueira Stevanato &nbsp; A ocorr\u00eancia de parasitoses em peixes \u00e9 limitante para o desenvolvimento da aquicultura em todo o mundo. Os peixes, de forma geral, s\u00e3o hospedeiros intermedi\u00e1rios de in\u00fameros parasitos, organismos esses que expoliam o hospedeiro, podendo provocar altas taxas de mortalidade quando n\u00e3o tratadas a tempo. 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