{"id":1303,"date":"2015-04-15T19:40:04","date_gmt":"2015-04-15T22:40:04","guid":{"rendered":"https:\/\/gia.org.br\/portal\/adaptacoes-respiratorias-em-peixes-os-efeitos-das-vantagens-evolutivas-sobre-o-sucesso-de-especies-em-ambientes-extremos\/"},"modified":"2021-04-20T12:24:09","modified_gmt":"2021-04-20T15:24:09","slug":"adaptacoes-respiratorias-em-peixes-os-efeitos-das-vantagens-evolutivas-sobre-o-sucesso-de-especies-em-ambientes-extremos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gia.org.br\/portal\/adaptacoes-respiratorias-em-peixes-os-efeitos-das-vantagens-evolutivas-sobre-o-sucesso-de-especies-em-ambientes-extremos\/","title":{"rendered":"Adapta\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias em peixes: os efeitos das vantagens evolutivas sobre o sucesso de esp\u00e9cies em ambientes extremos"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Adapta\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias em peixes: os efeitos das vantagens evolutivas sobre o sucesso de esp\u00e9cies em ambientes extremos<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 10pt; line-height: 115%; text-align: left;\"><strong>Por Giorgi Dal Pont<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 10pt; line-height: 115%; text-align: left;\"><strong>Publicado em 15\/04\/2015<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1260\" src=\"https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/capa.jpg\" alt=\"capa\" width=\"727\" height=\"405\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os processos adaptativos aos quais todos os seres vivos est\u00e3o submetidos se caracterizam como o pilar da Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o. Nela, Charles Darwin defende pela primeira vez os conceitos de sele\u00e7\u00e3o natural. A sele\u00e7\u00e3o natural reflete as adapta\u00e7\u00f5es que um determinado organismo sofre e que s\u00e3o incorporadas ao seu material gen\u00e9tico, fazendo com que essa \u201cnova esp\u00e9cie\u201d seja, evolutivamente, mais adaptada \u00e0 condi\u00e7\u00f5es ambientais e\/ou biol\u00f3gicas espec\u00edficas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os peixes s\u00e3o um grupo que apresentam uma imensa variedade de adapta\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas, morfol\u00f3gicas e comportamentais. Essas adapta\u00e7\u00f5es ocorreram durante milhares de anos e auxiliaram a sobreviv\u00eancia de diversas esp\u00e9cies frente a mudan\u00e7as ambientais. Atualmente, conseguimos inferir que tais adapta\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de conferir vantagens evolutivas para diversas esp\u00e9cies, podem ser consideradas como caracter\u00edsticas singulares para esp\u00e9cies de interesse comercial. Nesse contexto, as adapta\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias, que podem facilitar a captura de oxig\u00eanio ou mesmo a sua absor\u00e7\u00e3o, se caracterizam como vantagens que podem ser consideradas durante a escolha de uma determinada esp\u00e9cies para cultivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;Por que o oxig\u00eanio \u00e9 importante para os peixes? Assim como a maioria dos animais, os peixes satisfazem suas necessidades energ\u00e9ticas por meio da oxida\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas obtidas ap\u00f3s a digest\u00e3o do alimento. Apesar da grande import\u00e2ncia do oxig\u00eanio em seu metabolismo, os peixes apresentam uma grande desvantagem, quando comparados aos animais terrestres pois, na \u00e1gua, a concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio dissolvido \u00e9 muito menor que no ar. Al\u00e9m apresentar valores menores, a concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio dissolvido de um determinado corpo de \u00e1gua est\u00e1 diretamente relacionada com a temperatura e a press\u00e3o atmosf\u00e9rica. Quanto maior a temperatura da \u00e1gua, maior \u00e9 a tend\u00eancia de perda dos gases dissolvidos nela para a atmosfera. Al\u00e9m disso, quando falamos de animais que tem seu metabolismo regulado pela temperatura ambiental, a temperatura da \u00e1gua tamb\u00e9m ir\u00e1 fazer com que o consumo metab\u00f3lico de oxig\u00eanio seja aumentado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das causas mais frequentes de mortandade \u00e9 a queda na concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio nos corpos d\u2019\u00e1gua. O valor m\u00ednimo de oxig\u00eanio dissolvido para a preserva\u00e7\u00e3o da vida aqu\u00e1tica, estabelecido pela Resolu\u00e7\u00e3o CONAMA 357\/05 \u00e9 de 5,0 mg\/L. Por\u00e9m, uma varia\u00e7\u00e3o na toler\u00e2ncia de esp\u00e9cie para esp\u00e9cie \u00e9 esperada devido aos processos adaptativos as quais foram submetidas. As carpas (<em>Cyprinus carpio<\/em>), por exemplo, conseguem suportar concentra\u00e7\u00f5es 3,0 mg de oxig\u00eanio\/L, sendo que a carpa comum chega at\u00e9 mesmo a sobreviver por at\u00e9 6 meses em \u00e1guas frias e sem nenhum em condi\u00e7\u00e3o de an\u00f3xia (aus\u00eancia de oxig\u00eanio dissolvido). Tais valores seriam fatais para as trutas arco-\u00edris (<em>Oncorhynchus mykiss<\/em>) , que necessitam de uma concentra\u00e7\u00e3o maior de oxig\u00eanio dissolvido para sobreviverem, em torno de 8,0 mg\/L. O Dourado (<em>Salminus maxillosus<\/em>) sobrevive por at\u00e9 22 horas em \u00e1guas an\u00f3xicas a 20 \u00b0C, enquanto que as larvas destes peixes s\u00e3o menos tolerantes que os adultos. Isto porque os valores letais dependem do est\u00e1gio de vida dos organismos, sendo geralmente mais exigentes os est\u00e1gios mais jovens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do dourado, outras esp\u00e9cies nativas de ecossistemas aqu\u00e1ticos brasileiros apresentam adapta\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias bastante interessantes. Quando pensamos no ecossistema amaz\u00f4nico, especificamente, entendemos que a \u00fanica forma de sobreviv\u00eancia das diversas esp\u00e9cies que o comp\u00f5e \u00e9 por meio de desenvolvimento de adapta\u00e7\u00f5es \u00e0s condi\u00e7\u00f5es estremas de sazonalidade. Na bacia amaz\u00f4nica o ano \u00e9 dividido em apenas duas esta\u00e7\u00f5es \u2013 a seca e a chuva. No per\u00edodo de seca os rios podem baixar cerca at\u00e9 30 metros. Essa imensa redu\u00e7\u00e3o da coluna d`\u00e1gua modifica a hidrogeografia da regi\u00e3o, normalmente composta por rios de calhas que comportam grandes volumes de \u00e1gua. Dessa forma, somente uma parte da calha central dos grandes rios e lagoas nas regi\u00f5es dos igarap\u00e9s permanecem alagadas. Como mencionado anteriormente, a concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio est\u00e1 diretamente relacionada \u00e0 temperatura da \u00e1gua e, quando o volume de um corpo d`\u00e1gua \u00e9 consideravelmente reduzido, a temperatura do pequeno volume de \u00e1gua restante tende a aumentar significativamente. Com isso, as concentra\u00e7\u00f5es de oxig\u00eanio dos rios da bacia amaz\u00f4nica tendem a reduzir significativamente durante a esta\u00e7\u00e3o seca. Uma esp\u00e9cie nativa pr\u00e9-historicamente adaptada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de hip\u00f3xia \u00e9 o Pirarucu (<em>Arapaima gigas<\/em>). Essa esp\u00e9cie realiza respira\u00e7\u00e3o a\u00e9rea obrigat\u00f3ria por meio de um \u00f3rg\u00e3o do sistema digest\u00f3rio adaptadas para a absor\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio. Esse adapta\u00e7\u00e3o garantiu sucessos da esp\u00e9cie em \u00e9pocas em que, mesmo na atmosfera, a concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio era baixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra esp\u00e9cie amaz\u00f4nica que pode ser encontrada em lagos e lagoas formados durante a esta\u00e7\u00e3o seca \u00e9 o Tambaqui (<em>Colossoma macropomum<\/em>) . Essa esp\u00e9cie, bastante conhecida pelo seu interesse comercial, apresenta uma adapta\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica pouco conhecida. Em cen\u00e1rios de hip\u00f3xia o Tambaqui altera a morfologia do seu l\u00e1bio inferior, transformando-o em uma esp\u00e9cie de \u201cp\u00e1\u201d. Direcionando essa \u201cp\u00e1\u201d, que os nativos chamam de \u201caiu\u201d, na interface \u00e1gua\/ar e nadando continuamente, o Tambaqui direciona para \u00e0s br\u00e2nquias uma por\u00e7\u00e3o da \u00e1gua que contem maior satura\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio.&nbsp; Com isso, a esp\u00e9cie consegue sobreviver durante meses em ambientes completamente an\u00f3xios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da adapta\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica, alguns peixes amaz\u00f4nicos apresentam adapta\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas associadas aos processos respirat\u00f3rios. Um exemplo \u00e9 o que ocorre com o Jeju (<em>Hoplerythrinus unitaeniatus<\/em>). Esse esp\u00e9cie apresenta comportamento predat\u00f3rio voraz. Quando em cen\u00e1rio de hip\u00f3xia associada \u00e0 grande movimenta\u00e7\u00e3o muscular necess\u00e1ria para a captura da presa, grandes quantidades da enzima lactato desidrogenasse (LDH) s\u00e3o normalmente encontradas em seus tecidos brancos. Essa enzima indica a utiliza\u00e7\u00e3o de obten\u00e7\u00e3o de energia por meio de vias anaer\u00f3bicas, ou seja, em condi\u00e7\u00f5es de hip\u00f3xia, o Jeju altera seu metabolismo passando a ser dependente de quantidades m\u00ednimas de oxig\u00eanio para a manuten\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dos exemplos citados aqui existem outras diversas esp\u00e9cies que apresentam adapta\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias, inclusive algumas que ainda n\u00e3o foram descritas. Em 2009, durante o per\u00edodo de aclimata\u00e7\u00e3o para os experimentos da minha monografia de conclus\u00e3o de curso, em Manaus, foi observado um comportamento respirat\u00f3rio ainda n\u00e3o descrito para a esp\u00e9cie de peixe ornamental <em>Otocinclus vittatus <\/em>(popularmente conhecido como Limpa Vidro). Em um dia de calor intenso (temperatura ambiente por volta de 45 \u00b0C), apesar de estarem em tanques providos de aera\u00e7\u00e3o constante, foi observado um comportamento no qual os animais projetavam a regi\u00e3o ventral do corpo na superf\u00edcie da \u00e1gua e, com movimentos da nadadeira caudal, percorriam a l\u00e2mina d\u2019\u00e1gua em dire\u00e7\u00e3o cef\u00e1lica realizando movimentos de suc\u00e7\u00e3o com a boca. Esse tipo de comportamento, assim como o do Tambaqui, propicia a ingest\u00e3o de \u00e1gua da camada mais superficial, interface ar-\u00e1gua, a qual fornece maior suprimento O<sub>2<\/sub> que pode ser captado por \u00f3rg\u00e3os respirat\u00f3rios acess\u00f3rios, como est\u00f4mago ou intestinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, evidencia-se que v\u00e1rias s\u00e3o as estrat\u00e9gias utilizadas por diversas esp\u00e9cies de peixes com o objetivo de utilizar os ambientes no qual est\u00e3o inseridos, mesmo em cen\u00e1rios de baix\u00edssima disponibilidade de oxig\u00eanio dissolvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<img decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-837\" src=\"https:\/\/gia.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Figura1.jpg\" alt=\"Figura1\" width=\"742\" height=\"822\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 1. Esp\u00e9cies de peixes amaz\u00f4nicos que apresentam algum tipo de adapta\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria. A) Exemplar de <em>Arapaima gigas<\/em> realizando respira\u00e7\u00e3o a\u00e9rea. B) cavidade bucal do Tambaqui (<em>Colossoma macropumum<\/em>), sendo que na foto pode-se notar o l\u00e1bio inferior que, em situa\u00e7\u00f5es de hip\u00f3xia, pode ser estendido e apresentar mais de 15 cm de comprimento. C) Exemplar de <em>Hoplerythrinus unitaeniatus<\/em> e D) <em>Otocinclus vittatus<\/em>.&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adapta\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias em peixes: os efeitos das vantagens evolutivas sobre o sucesso de esp\u00e9cies em ambientes extremos &nbsp; Por Giorgi Dal Pont Publicado em 15\/04\/2015 &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os processos adaptativos aos quais todos os seres vivos est\u00e3o submetidos se caracterizam como o pilar da Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o. 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