Por Camila P. Tavares

O mundo inteiro está sofrendo impactos devido à pandemia da doença COVID-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2. O surto da doença ocorreu em dezembro de 2019, em Wuhan, China e depois se espalhou rapidamente por todo o mundo. Desde então, a pandemia tem impactado o setor aquícola no mundo todo, e a situação está evoluindo rapidamente.

Globalmente, o peixe e seus subprodutos são um dos alimentos mais comercializados na aquicultura. Segundo a FAO (2020), a produção de peixe fornece até 50% da proteína animal em alguns países desenvolvidos. Em 2018, 67 milhões de toneladas de peixe foram comercializadas internacionalmente por um valor total de exportação de 164 bilhões de dólares, o que equivale a quase 38% de todos os peixes capturados ou cultivados em todo o mundo.

No entanto, o comércio sofreu recentemente uma desaceleração. As estimativas da FAO para 2019 sugerem que o valor comercial total reduziu cerca de 2% em quantidade e valor em comparação com o ano anterior (FAO 2019). O surto da doença por coronavírus (COVID-19) já impactou negativamente o comércio entre os principais exportadores e importadores em 2020, como a China.

As implicações da pandemia do COVID-19 no setor aquícola são bastante complexas. As cadeias de fornecimento e comercialização de peixe e mariscos que são altamente dependentes do comércio internacional estão sofrendo grande perda econômica, devido às restrições e fechamentos dos mercados, restaurantes e hotéis. Segundo a FAO (2020), a indústria do salmão, em particular, sofreu com o aumento dos custos de frete aéreo e o cancelamento de voos. Também foram registrados alguns déficits na distribuição de alimentos e medicamentos para os animais de cultivo, devido às restrições no transporte.

Além disso, há evidências crescentes de que os produtos não vendidos resultarão em um aumento dos estoques de animais vivos nas fazendas de cultivo e, portanto, em custos mais altos para a alimentação e em maior risco de mortalidade. Também, há preocupações sobre como as unidades de produção de peixes progredirão com menos compradores e nova rotina de trabalho (NFFO 2020).

Esse cenário também teve piora, depois que algumas percepções errôneas em alguns países surgiram. Notícias falsas sobre a transmissão do vírus pelo consumo de frutos-do-mar, levaram à diminuição do consumo de peixes e seus subprodutos. Porém, não há evidências de que os animais aquáticos, como peixes, crustáceos e moluscos, desempenham um papel na disseminação do novo coronavírus para os seres humanos. Até o momento, também não há evidências de que os animais importados e seus produtos possam representar qualquer ameaça de transmissão do COVID-19 (OMS 2020, Shahidi 2020).

Como em qualquer produto ou superfície, os frutos-do-mar e os subprodutos podem ficar contaminados se manuseados por pessoas infectadas com COVID-19 e que não seguem boas práticas de higiene. Por esse motivo, assim como antes da pandemia, é importante implementar práticas robustas de higiene para proteger os trabalhadores e os produtos da contaminação. Embora, não haja evidências atuais de que a transmissão de SARS-CoV-2 por frutos-do-mar possa ocorrer, ainda existe a possibilidade de uma redução drástica na ingestão de proteína de animais aquáticos devido à preocupação com a contaminação pelo COVID-19 em alimentos crus, incluindo peixe cru.

No entanto, o verdadeiro efeito desse impacto permanece desconhecido e é isso que cria tanta incerteza e medo em todo o mundo. Também ainda não está claro se o setor sofrerá uma recuperação rápida ou lenta após o término da pandemia. No entanto, é esperado que algumas empresas possam gerenciar ou até se beneficiar da crise, por meio da criação de inovações digitais, uso de aplicativos baseados na Web, serviços on-line e maior rastreabilidade dos produtos. De acordo com Seleiman, Seleiman et al. (2020) o impacto da pandemia do novo coronavírus foi positivo e estimulou o crescimento do agronegócio brasileiro, como as cadeias produtivas de soja, milho, café, cana, citros, algodão, borracha, trigo e vegetais. Um dos motivos desse crescimento, foi o desenvolvimento de novas tecnologias, como a digitalização em campo e o uso de drones, transformando e aprimorando todo o agronegócio brasileiro.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FAO. (2019). “Q&A: COVID-19 pandemic – impact on fisheries and aquaculture.”   Retrieved 19/07, 2020, from http://www.fao.org/2019-ncov/q-and-a/impact-on-fisheries-and-aquaculture/en/.

FAO (2020). STATE OF WORLD FISHERIES AND AQUACULTURE 2020 : sustainability in action. [S.l.], FOOD & AGRICULTURE ORG.

NFFO, N. F. O. F. S. O. (2020). “Impact of Coronavirus on Fishing.”   Retrieved 07/07, 2020, from https://nffo.org.uk/news/impact-of-coronavirus-on-fishing.html. .

OMS, W. O. F. A. H. (2020). “Questions and answers on the 2019 coronavirus disease (COVID‑19).”   Retrieved 19/07, 2020, from https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/question-and-answers-hub.

Seleiman, M. F., M. F. Seleiman, S. Selim, B. A. Alhammad, B. M. Alharbi and F. C. Juliatti (2020). “Will novel coronavirus (COVID-19) pandemic impact agriculture, food security and animal sectors?” Biosci. J. Bioscience Journal 36(4): 1315-1326.

Shahidi, F. (2020). “Does COVID-19 Affect Food Safety and Security?” JFB Journal of Food Bioactives 9.