Por Dra. Gisela Castilho Westphal

É fundamental que os moluscos bivalves sejam cultivados seguindo as Boas Práticas de Manejo e em um ambiente de ótima qualidade, pois se o meio for saudável, o molusco também o será e o maricultor evitará problemas com a comercialização de seu produto. Além disso, medidas de Biosseguridade são importantes não só para se manter a qualidade dos moluscos produzidos, mas também, por criar barreiras que protejam os organismos cultivados, reduzindo a probabilidade de introdução de patógenos no ambiente de cultivo e, consequente, surtos de doenças.

 

Recomendações durante o processamento

Figura 1. Material que pode ser consultado para adoção de Boas Práticas na produção de ostras. Disponível em https://m.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/bis/ostreicultura-manual-de-boas-praticas,6f16974198962510VgnVCM1000004c00210aRCRD
  • Evitar os horários mais quentes do dia e, sempre que possível, manejar as ostras na sombra. Durante o manejo os moluscos não devem ser deixados fora da água e superaquecidos ao Sol, assim como também não podem ser depositados em lugares que possibilitem a contaminação por produtos químicos.
  • Manipular as ostras com cuidado para não quebrar a concha e sempre em lugar limpo, para evitar contaminação.
  • Utilizar sempre equipamentos, utensílios, bancada em bom estado de conservação, construídos de materiais impermeáveis (como o plástico), resistentes, que não liberem nenhuma substância tóxica e que sejam de fácil limpeza.
  • Anotar em um caderno, formulário ou planilha de computador: o número do lote (pode-se usar números em sequência para cada lote produzido), a data e o horário da colheita, a quantidade de ostras em cada lote, o destino de cada lote e o nome do responsável.
  • Bivalves devem ser armazenados longe do chão e embalados de uma forma que os mantenham vivos, com seu líquido no interior da concha.
  • Procure retirar moluscos bivalves mortos ou danificados, pois eles podem contaminar todo o lote.
  • Bivalves não podem ser armazenados sujos. Caso os bivalves estejam cobertos por lama ou outras sujeiras, precisam ser lavados com água limpa, antes de colocá-los em tanques de purificação e, principalmente, para a comercialização.

Como deve ser feita a limpeza das ostras vivas para a comercialização?

  1. Limpar as ostras com lavadora de alta pressão ou equipamentos similares, que retirem toda a sujeira presente na concha. Se não for possível, usar uma mangueira, mas sempre usando água potável.
  2. Depois, em local fresco e sombreado, retirar manualmente as cracas, algas e outros organismos que permaneceram preso às conchas das ostras.
  3. Lavar mais uma vez as ostras em água potável e armazená-las em caixas plásticas ou em sacos do tipo usado para transportar cebolas.
  • Certifique-se de que o molusco não está armazenado imerso em água ou encostado diretamente no gelo, pois pode haver comprometimento da qualidade do produto. Obs.: só utilize gelo de qualidade, produzido com água potável.
  • A temperatura ideal para transporte de molusco bivalves vivos, que serão utilizados para consumo, é de 2°C a 10°C.

Implicações ambientais do cultivo de moluscos bivalves

Existem requisitos legais que abrangem a maioria dos moluscos bivalves (ostras, mexilhões, amêijoas e vieiras), grande parte das operações de cultivo, as áreas de colheita, os centros de depuração e a comercialização.

 

Sedimentação do ambiente

Figura 2. Sedimentação em cultivo de ostras.

Para a sua alimentação, os bivalves filtram cerca de 100 Litros de água todos os dias. Todo o material que está na água é capturado, como organismos microscópicos (principalmente microalgas) e partículas de matéria orgânica. Estas partículas alimentícias capturadas são aderidas ao muco e transportadas até a boca, onde os palpos labiais selecionam o alimento. A dieta dos bivalves é constituída somente de material orgânico particulado e dissolvido e de algas microscópicas (fitoplâncton). O material rejeitado, mas ainda aglutinado pelo muco, é ejetado de volta ao meio sob a forma de “pseudofezes”.

A atividade de cultivo de moluscos bivalves apresenta aspectos positivos, em termos econômicos para as comunidades de pescadores artesanais, mas também apresenta impactos ambientais para as regiões onde se desenvolve. Desses impactos, o aumento da taxa de sedimentação é um dos efeitos comumente observados. Este impacto é decorrente da forma de alimentação dos moluscos bivalves, que filtram a água do mar e retêm todas as partículas contidas. Parte deste material é utilizada como alimento e resulta na produção de fezes e outra
parte, que não é utilizada como alimento e lama, é eliminada na forma de muco e volta para a coluna de água. O material que cai no fundo do mar, junto com moluscos, são os organismos associados que despencam ou morrem, fazendo com que se observe uma mudança na composição do sedimento de fundo onde os cultivos são realizados. Assim, o cultivo pode fazer com que haja uma grande quantidade de matéria orgânica no sedimento, tirando inclusive os animais e vegetais, mudando a composição da vida que habita este ecossistema. A matéria orgânica que se assenta no fundo sofrerá a ação de bactérias, que consomem uma grande quantidade de oxigênio durante o processo de decomposição. Não havendo renovação da água próxima ao fundo, poderá haver um déficit de oxigênio e a morte dos organismos que ali vivem, resultando em um sério problema.

 

Destruição de mata nativa

Figura 3. Confecção de estruturas de cultivo utilização troncos provenientes da mata local.

Em diversos cultivos que utilizam o método de estacas, os maricultores retiram a matéria-prima para a construção das estruturas da mata nativa. Como resultado, tem-se o desmatamento e suas consequências sobre a flora, fauna e sobre as comunidades humanas que habitam a região.

Instalação do cultivo de forma desorganizada

Figura 4. Diferenças entre a forma de disposição das estruturas de cultivo.

A instalação de cultivos de forma desorganizada e sem alinhamento causa impacto visual (poluição visual) e diminuição da qualidade da paisagem em que o cultivo está inserido. Fato que confronta diretamente com uma das principais atividades econômicas atualmente no litoral, o turismo. Portanto, o aspecto visual dos cultivos deve ser levado em consideração para se evitar problemas.

Descarte inadequado das conchas de moluscos bivalves

Figura 5. Conchas de ostras descartadas no ambiente.

Muitas vezes as conchas são depositadas em lugares inadequados e, frequentemente, são utilizadas como material de aterro. Um desperdício de material nobre, pois as conchas são ricas em cálcio e possuem grande potencial de aproveitamento para agricultura (para correção do solo), pecuária (alimentação animal) e área farmacêutica (formulação de medicamentos para reposição de cálcio).

Impactos ambientais positivos

Figura 6. À esquerda exemplo de ostreicultura conduzida de forma racional e, à direita, imagem de estoques naturais mantidos com baixa exploração.

Quando conduzida de forma racional, a maricultura é uma atividade ecologicamente correta, pois nos locais onde os cultivos são desenvolvidos observa-se um aumento na abundância e na diversidade de diferentes espécies de organismos marinhos, proporcionando uma inter-relação trófica entre as espécies neste novo “ecossistema”. O aporte de matéria orgânica sob os cultivos inclusive com queda dos próprios moluscos e toda a fauna associada que pode cair no fundo viva ou morta, aumenta a oferta de alimento para muitos organismos. A área de cultivo pode servir como área de alimentação para polvos, lagostas, caranguejos, gastrópodes (caramujos), predadores e outros organismos que podem ter interesse comercial e serem capturados.

Referências

 Marenzi, A. W. C. & Castilho-Westphal, G. G. Cultivo de organismos aquáticos – Malacocultura. Curitiba: E-Tec Brasil. 2012. 130 p.

Ostrensky, A.; Castilho-Westphal, G. G.; Girotto, M. V. F.; Horodesky, A.; Hungria, D. B. Ostreicultura. Manual de boas práticas: qualidade e segurança para bons negócios. Brasília: Sebrae. 2015. 33 p.