Por Ana Paula da Silva Bertão e Raíssa Vitória Vieira Leite

A competição é um tipo de interação ecológica que pode ocorrer de forma intraespecífica ou interespecífica. A relação de competição entre os organismos acontece por diversos motivos, incluindo concorrência por territórios/substratos, alimentos, nicho ecológico e até mesmo, por parceiros sexuais. Entre os fatores bióticos, a competição interespecífica pode ser definida como qualquer interação que afeta negativamente o crescimento, a sobrevivência ou a fecundidade da população de uma determinada espécie, em decorrência da exploração por recursos e/ou de interferência por indivíduos de outra espécie (Begon et al., 1986). Um exemplo característico de relações de competição entre as espécies aquáticas invasoras incrustantes na América do Sul acontece com Limnoperna fortunei na fase juvenil e adulto; L. fortunei e Corbicula fluminea (Wood, 2013) e entre L. fortunei e o cnidário Cordylophora caspia.

A competição intraespecífica não envolve apenas interações diretas entre membros da mesma espécie (como juvenis e adultos L. fortunei concorrendo por substrato em aglomerados de mexilhão), mas também pode incluir interações indiretas em que um indivíduo esgota um recurso compartilhado (como juvenis e adultos L. fortunei competindo por alimentação). A competição por recurso ocorre quando esta distribuição é desigual e acontece quando as hierarquias em uma população influenciam a quantidade de recursos que cada indivíduo recebe. Organismos nos territórios mais valorizados ou no topo das hierarquias obtêm uma quantidade suficiente de recursos, enquanto indivíduos sem território não obtêm nenhum recurso. Como por exemplo, indivíduos adultos de L. fortunei, conseguem se alimentar eficientemente, por estar no topo do aglomerado de mexilhões, diferentemente dos juvenis que não possui tal hierarquia.

Figura 1. Aglomerado de Limnoperna fortunei

A competição entre L. fortunei e C. fluminea pode acontecer quando estes organismos coexistirem em ambientes próximos, assim o espaço e alimentação pode impulsionar uma concorrência quando estes recursos são limitados. A interação de competição entre L. fortunei e C. caspia, pode ser observada principalmente quando existem pouco espaço disponível utilizados para a incrustação. Visto que estes organismos se fixam em substratos comuns, o que os aproximam em diversos momentos ou fase de vida durante o processo de invasão. Como resultado, a taxa de crescimento de uma população diminui à medida que a competição intraespecífica se torna mais intensa, tornando-a um processo negativamente dependente da densidade.

Figura 2. Competição do substrato entre Limnoperna fortunei e Cordylophora caspia

As espécies invasoras incrustantes possuem comportamentos e características favoráveis à disseminação e o sucesso no processo de invasão em diversos ambientes. Como, por exemplo: possuem rápidas taxas de crescimento, maturidade sexual precoce, existência de uma ou mais estratégias bem-sucedidas de reprodução, larvas livres natantes, dispersão e comportamento oportunista (Darrigran, 2002; Boltovskoy, 2015; Boltovskoy e Correa, 2015; Boltovskoy et al., 2015).

Espécies invasoras frequentemente interagem umas com as outras, e seus impactos são mais prováveis quando existem interações (Ricciardi 1994; Ricciardi et al 1996), mesmo que concorrendo por espaço, alimentação ou nicho ecológico, essas relações acabam conectando e facilitando o processo de colonização, estabelecimento e propagação das espécies aquáticas invasoras incrustantes nos ambientes invadidos.

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