Por Raíssa Vitória Vieira Leite e Ana Paula S. Bertão

Espécies aquáticas invasoras estão sendo introduzidas em novas áreas principalmente através de atividades humanas que acabam eliminando barreiras geográficas e possibilitando a dispersão dessas espécies para outras regiões, principalmente através de água de lastro de navios cargueiros (Figura 1). Algumas espécies de moluscos aquáticos invasores como Limnoperna fortunei (mexilhão-dourado), Dreissena polymorpha (mexilhão-zebra) e Dreissena bugensis (mexilhão quagga) compartilham de diferentes estratégias de dispersão entre si, como: larva livre natante, desenvolvimento de uma estrutura de fixação por nome de bisso, rápido desenvolvimento e alta tolerância ambiental.

Figura 1. Lastreamento e deslastreamento de navios cargueiros. (Torscano, 2012).

De acordo com Karatayev, Boltovskoy et al. (2007) e Uliano-Silva, Fernandes et al. (2013), o mexilhão-zebra compartilha muitas características biológicas, impactos ambientais e econômicos semelhantes aos causadas pelo mexilhão-dourado, porém essas semelhanças não foram até aqui suficientes para que ambas as espécies compartilhassem as mesmas rotas de dispersão. Sabe-se que temperaturas elevadas (> 26 – 32 °C) podem  acarretar na morte de larvas e indivíduos adultos de D. polymorpha (McMahon 1990). O mesmo acontece com D. bugensis, que  apresenta taxas significativas de mortalidade em temperaturas superiores a 28 °C, sendo que temperaturas entre 32 – 35 °C são consideradas letais para a espécie (Mills, Rosenberg et al. 1996, Benson, Richerson et al. 2018).

Dreissena polymorpha é originária do Mar Cáspio e é considerada uma das maiores pragas aquáticas invasoras do mundo (Aldridge, Elliott et al. 2004). A espécie foi identificada na Europa no século XIX e, décadas depois, na América do Norte (Hebert, Wilson et al. 1991, Claudi and Mackie 1993, Schloesser and Nalepa 1994). O mexilhão-dourado é endêmico dos rios e córregos do sudeste asiático (Ricciardi 1998). Essa espécie tem colonizado áreas onde a temperatura da água supera os 30 – 32° C, como é o caso da região do Pantanal, no Brasil (Sylvester, Dorado et al. 2005). Pastorino, Darrigran et al. (1993) registraram pela primeira vez esta espécie na América do Sul no rio da Prata em 1991, onde foi provavelmente introduzida através de água de lastro de navios cargueiros. De acordo com Darrigran, De Drago et al. (2000), Darrigran (2002) e Karatayev, Boltovskoy et al. (2007), dez anos após o primeiro relado da presença de  L. fortunei no rio da Prata, foi constatada uma taxa média de dispersão da espécie a montante dessa bacia, equivalente a cerca de 250 km/ano. Desde então, o mexilhão-dourado expandiu sua distribuição geográfica pelos maiores sistemas fluviais da Bacia do Prata, afetando as bacias dos rios Paraná, Uruguai e Paraguai (Darrigran, Martin et al. 1998, Cataldo and Boltovskoy 2000). No Brasil, o  mexilhão-dourado já foi detectado nos rios Paraná e Paraguai, nos estados do Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul (Pestana, Ostrensky et al. 2010), Bahia (Barbosa, Silva et al. 2016), na bacia Amazônica e do Orinoco (Oliveira, Campos et al. 2015). Segundo Ricciardi (1998), L. fortunei apresenta grande probabilidade de invadir países da América do Norte e Europa, já que existe um intenso trafego marítimos para essas regiões.

 

Bibliografias sugeridas

Aldridge, D. C., et al. (2004). “The recent and rapid spread of the zebra mussel (Dreissena polymorpha) in Great Britain.” Biological Conservation 119(2): 253-261.

           

Barbosa, N. P., et al. (2016). “Limnoperna fortunei (Dunker, 1857)(Mollusca, Bivalvia, Mytilidae): first record in the São Francisco River basin, Brazil.” Embrapa Pantanal-Artigo em periódico indexado (ALICE).

           

Benson, A., et al. (2018). Dreissena rostriformis bugensis (Andrusov, 1897): US Geological Survey, Nonindigenous Aquatic Species Database.[updated 2018 May 2; cited 2018 July 6].

           

Cataldo, D. H. and D. Boltovskoy (2000). “Yearly reproductive activity of Limnoperna fortunei (Bivalvia) as inferred from the occurrence of its larvae in the plankton of the lower Paraná river and the Río de la Plata estuary (Argentina).” Aquatic Ecology 34(3): 307-317.

           

Claudi, R. and G. L. Mackie (1993). Practical Manual for the Monitoring and Control of Macrofouling Mollusks in Fresh Water Sys, CRC Press.

           

Darrigran, G. (2002). “Potential impact of filter-feeding invaders on temperate inland freshwater environments.” Biological Invasions 4(1): 145-156.

           

Darrigran, G., et al. (2000). “PLATA. REGION NEOTROPICAL.” Medio Ambiente 13(2): 75-79.

           

Darrigran, G., et al. (1998). “Macroinvertebrates associated with Limnoperna fortunei (Dunker, 1857)(Bivalvia, Mytilidae) in Río de la Plata, Argentina.” Hydrobiologia 367(1-3): 223-230.

           

Hebert, P. D., et al. (1991). “Demography and ecological impacts of the invading mollusc Dreissena polymorpha.” Canadian Journal of Zoology 69(2): 405-409.

           

Karatayev, A. Y., et al. (2007). “The invasive bivalves Dreissena polymorpha and Limnoperna fortunei: parallels, contrasts, potential spread and invasion impacts.” Journal of Shellfish Research 26(1): 205-214.

           

McMahon, R. (1990). Impact of European zebra mussel infestation to the electric power industry. Proceedings of the American Power Conference;(United States).

           

Mills, E. L., et al. (1996). “A review of the biology and ecology of the quagga mussel (Dreissena bugensis), a second species of freshwater dreissenid introduced to North America.” American Zoologist 36(3): 271-286.

           

Oliveira, M. D., et al. (2015). Colonization and spread of Limnoperna fortunei in South America. Limnoperna Fortunei, Springer: 333-355.

           

Pastorino, G., et al. (1993). Limnoperna fortunei (Dunker, 1857)(Mytilidae), nuevo bivalvo invasor en aguas del Río de la Plata.

           

Pestana, D., et al. (2010). “Prospecção do molusco invasor Limnoperna fortunei (Dunker, 1857) nos principais corpos hídricos do estado do Paraná, Brasil.” Papéis Avulsos de Zoologia 50(34): 553-559.

           

Ricciardi, A. (1998). “Global range expansion of the Asian mussel Limnoperna fortunei (Mytilidae): another fouling threat to freshwater systems.” Biofouling 13(2): 97-106.

           

Schloesser, D. W. and T. F. Nalepa (1994). “Dramatic decline of unionid bivalves in offshore waters of western Lake Erie after infestation by the zebra mussel, Dreissena polymorpha.” Canadian Journal of Fisheries and Aquatic Sciences 51(10): 2234-2242.

           

Sylvester, F., et al. (2005). “Filtration rates of the invasive pest bivalve Limnoperna fortunei as a function of size and temperature.” Hydrobiologia 534(1-3): 71-80.

           

Uliano-Silva, M., et al. (2013). “Invasive species as a threat to biodiversity: The golden mussel Limnoperna fortunei approaching the Amazon River basin.” Exploring Themes on Aquatic Toxicology. Kerala. P135–148.