Por Camila Prestes Tavares

Você já deve ter visto uma imagem do caranguejo-do-coco e se perguntado se era real ou se era mais uma sabotagem da internet. Este caranguejo realmente existe e é da espécie Birgus latro, popularmente chamado de caranguejo-do-coco. O caranguejo-do-coco, infelizmente (ou felizmente!), não pode ser encontrado no Brasil, pois ele é uma espécie exclusiva de ilhas do Oceano Índico e Pacífico, incluindo a Austrália continental e Madagascar. A espécie é um anomuro pertencente à Família Coenobitidae e exibe uma série de características biológicas e ecológicas únicas.

Figura 1. Imagem de um caranguejo-do-coco escalando um latão de lixo doméstico. FONTE: Epic Wildlife/YouTube

O Birgus latro é o maior artrópode terrestre vivente do mundo, alcançando um peso de até quatro quilos e um metro de comprimento corporal (cefalotórax e abdômen). Este animal também é conhecido como caranguejo-ladrão (ou também ladrão-de-coco), pois ele pode invadir áreas urbanas e se alimentar de comidas descartadas nos latões de lixo doméstico (Figura 1). Os caranguejos-do-coco são onívoros e comem alimentos variados, como carne crua e frutas, principalmente coco (Figura 2).

Figura 2. Imagem de um caranguejo-do-coco Birgus latro adulto se alimentando de um coco. FONTE: K. Singer.

O caranguejo-do-coco é considerado como um recurso economicamente importante para o consumo humano em toda a sua área de distribuição. Um prato contendo apenas um caranguejo pode custar entre 25 a 50 dólares em restaurantes (Figura 3). No entanto, as populações de B. latro foram severamente esgotadas na maioria das ilhas habitadas devido às capturas excessivas. Este caranguejo é protegido globalmente e foi listado como “vulnerável” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), mas foi recentemente categorizado como “deficiente em dados” nessa lista, devido à falta de informações disponíveis sobre a espécie.

Figura 3. Imagem de um prato de caranguejo-do-coco servido em um dos restaurantes das Ilhas Fiji, localizado no Pacífico Sul. FONTE: Little Ocean Seafood Restaurant (tripadvisor).

O caranguejo-do-coco é terrestre e não necessita de grandes quantidades de água para o cultivo, somente para o estágio larval. As larvas se desenvolvem por meio de vários estágios planctônicos (zoea e glaucothoe) no mar e se metamorfoseiam em pós-larvas bentônicas (Figura 4). Devido ao corpo mole e frágil do caranguejo-do-coco, os juvenis carregam conchas de gastrópodes antes de migrar para a terra e metamorfosear-se para o estágio juvenil.

Figura 4. Ciclo de vida do caranguejo-do-coco. Fonte: Helagi, Tafatu et al. (2015).

Em Rota, nas Ilhas Marianas do Norte, situada no oceano Pacífico ocidental (Oceania), algumas fazendas têm cultivado populações de B. latro em cativeiro por várias décadas. No entanto, poucos desses produtores aplicam técnicas científicas de cultivo para aumentar a produção. Por tanto, a maior parte do consumo vem dos caranguejos capturados do ambiente.

Em 2006, foi realizado um projeto financiado pelo Programa de Pesquisa e Educação em Agricultura Sustentável (SARE) nas Ilhas Marianas do Norte. Durante o projeto, foi possível cultivar o caranguejo-do-coco usando alimentos reciclados, como banana, mamão, cana-de-açúcar, melancia, carne crua e coco. Os caranguejos juvenis foram cultivados em um cercado composto com duas lagoas de água, uma de água salgada e outra de água doce, cada uma forrada com blocos ocos para imitar abrigos de habitat natural (Figura 5). Também foi usado solo superficial na metade da área para os caranguejos se refugiarem durante o processo de muda. Utilizando essa metodologia, foi registrado crescimento de 2 centímetros de comprimento corporal por ano. Os juvenis atingiram a maturidade sexual em cerca de seis anos, medindo cerca de 15 cm de comprimento corporal e pesando cerca de 2 quilos.

Figura 5. Estrutura de cultivo de Birgus latro nas Ilhas Marianas do Norte, situadas no oceano Pacífico ocidental, Oceania. FONTE: https://projects.sare.org/sare_project/fw06-010/

Estudos em laboratório desenvolveram tecnologias de larvicultura do caranguejo-do-coco, e determinaram as temperaturas adequadas (entre 27 e 30 ºC) para o cultivo das larvas no estágio de zoea (Hamasaki, Sugizaki et al. 2009, Sugizaki, Hamasaki et al. 2010). Os estudos demonstraram com sucesso a viabilidade da larvicultura com altas taxas de sobrevivência (71 e 82%) desde a incubação até o estágio pós-larval em tanques durante 25 a 60 dias (Hamasaki, Sugizaki et al. 2009).

Mais recentemente, em um estudo conduzido no Japão (Hamasaki, Ishiyama et al. 2014), os caranguejos-do-coco foram cultivados por períodos mais longos (6-24 meses) desde a metamorfose de pós-larva (Figura 6) até o crescimento dos juvenis (Figura 7). As pós-larvas recentemente metamorfoseadas foram mantidas durante seis meses em diferentes recipientes contendo água do mar. A partir do sétimo mês, os juvenis foram mantidos em recipientes plásticos preenchidos com areia para representar a terra e abastecidos com água doce em um pequeno prato. A taxa de sobrevivência após seis meses de cultivo variou de 30-55% e cresceram aproximadamente 1 mm de comprimento torácico médio (TL)⁠. A taxa de sobrevivência dos juvenis cultivados até 14 meses foi de 60%, mas diminuiu para 30% no final do período de cultivo e cresceram cerca de 4 mm de TL após 24 meses.

Essas informações sugerem que o cultivo do caranguejo-do-coco ainda tem muitos desafios para superar, pois é uma espécie de crescimento extremamente lento, realizando apenas três mudas por ano em cativeiro. Portanto, as pesquisas científicas voltadas ao desenvolvimento das tecnologias de cultivo de B. latro serão fundamentais para conservar as populações selvagens e suprir a demanda local por essa iguaria.

Figura 6. Imagens de pós-larvas de Birgus latro com conchas de gastrópodes para proteger seu corpo mole durante a fase pós-larval (A) e logo após a remoção da concha, devido ao crescimento e endurecimento do corpo do juvenil de caranguejo-do-coco (B-M). As setas indicam as placas tergais. Comprimento torácico: (A-C) 3,7 mm; (D-E) 5,3 mm; (F-H) 3,9 mm; (E-U-J) 3,5 mm; (K-M) 3,9 mm; (N-O) 4,0 mm; (P-Q) 3,2 mm. FONTE: Hamasaki, Ishiyama et al. (2014).
Figura 7. Imagens do cefalotórax dorsal de juvenis do caranguejo-do-coco após o abandono das conchas de gastrópodes. As setas indicam as placas tergais. Os círculos pontilhados representam os padrões de pigmentação do corpo que foram retidos por mudas sucessivas. FONTE: Hamasaki, Ishiyama et al. (2014).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Hamasaki, K., N. Ishiyama, S. Yamashita and S. Kitada (2014). “Survival and Growth of Juveniles of the Coconut Crab Birgus latro Under Laboratory Conditions: Implications for Mass Production of Juveniles.” Journal of Crustacean Biology 34(3): 309-318.

Hamasaki, K., M. Sugizaki, S. Dan and S. Kitada (2009). “Effect of temperature on survival and developmental period of coconut crab ( Birgus latro) larvae reared in the laboratory.” AQUA Aquaculture 292(3): 259-263.

Helagi, N., J. Tafatu, I. Bertram, B. Moore, M. Linawak and K. Pakoa (2015). Status of the coconut crab Birgus latro in Niue.

Sugizaki, M., K. Hamasaki and S. Dan (2010). “Growth and morphogenesis of larvae reared at different temperatures, and mass culture of larvae in the coconut crab Birgus latro (Decapod, Coenobitidae).” Aquaculture Science 58(1): 135-142.