Por Fabrício Salvador Vidal

 

O mexilhão dourado Limnoperna fortunei (Dunker, 1857) é um bivalve incrustante da família Mytilidae nativo de ambientes dulcícolas do sudeste asiático. Os primeiros registros da sua introdução no continente sul-americano datam do ano de 1991 no rio da Prata, na Argentina (Pastorino, Darrigran et al. 1993), tendo uma rápida dispersão para países como o Uruguai, Paraguai e Brasil (Mansur, Richinitti et al. 1999, Darrigran e Ezcurra de Drago 2000). Logo suas características biológicas demonstram uma grande capacidade de se estabelecer e se desenvolver em diferentes ecossistemas aquáticos continentais. Como consequência, o L. fortunei se torna uma ameaça a outros grupos de organismos aquáticos, competindo por recursos e provocando alterações negativas nos diferentes níveis ecossistêmicos (Correa 2015). Além dos impactos ambientais, o L. fortunei vêm ocasionando prejuízos econômicos nos equipamentos e estruturas hidráulicas do setor de geração de energia elétrica e em estações de tratamento de água (Martinez, de Resende et al. , O’Neill Jr 1997, de Resende 2014).

Entre os mecanismos utilizados para o controle de incrustação causadas por L. fortunei e por outros bivalves incrustantes no mundo, os métodos químicos se destacam por serem aqueles mais ampla e frequentemente utilizados (Brugnoli and Clemente 2002, Cataldo, Boltovskoy et al. 2002, Matsui, Nagaya et al. 2002). Os principais agentes químicos utilizados na tentativa de controlar esses organismos incrustantes são produtos à base de cloro, amônia, hidróxido de sódio, peróxido de hidrogênio ou sulfato de cobre (Rajagopal, van der Velde et al. 2002, Mattos, Shiraishi et al. 2003).

A eficiência dos métodos químicos de controle de incrustação de L. fortunei em sistemas hidráulicos abertos, ou seja, aqueles diretamente conectados ao ambiente, há a necessidade de se conhecer e mensurar seus efeitos diretos sobre organismos-alvo (Claudi and Oliveira 2015). Tal conhecimento também é importante para minimização dos custos com a aplicação dos produtos e para evitar eventuais danos ambientais associados (Bertoletti, Gherardi-Goldstein et al. 1989, Claudi and Oliveira 2015).

Testes de toxicidade do tipo dose/resposta constituem uma das formas de se obter as concentrações mais adequadas dos produtos destinados ao controle dos organismos indesejados (Bertoletti, Gherardi-Goldstein et al. 1989, Calazans, Americo et al. 2013). No entanto, a avaliação biológica dos efeitos provocados pela exposição controlada aos produtos torna-se necessária para a definição de parâmetros que indiquem o mecanismo de interação das substâncias químicas com o organismo teste, possibilitando esclarecer a relação causa-efeito e dose-efeito (Amorim 2003, Jesus and de Carvalho 2008). A definição dos biomarcadores, como respostas biológicas aos estressores químicos, podem ser demonstrados a partir de alterações em diferentes níveis biológicos:  bioquímico, celular, histológico, fisiológico ou comportamental (Depledge and Fossi 1994, Walker, Sibly et al. 2016). A avaliação da exposição aos agentes químicos, a partir da medida das alterações biológicas e da concentração dos compostos no organismo podem ser indicadas por biomarcadores enzimáticos. Essa exposição leva à um quadro de estresse oxidativo e a um aumento na concentração de radicais livres. A presença do xenobiótico no organismo do L. fortunei provocará um desequilíbrio entre as espécies reativas de oxigênio (EROs) e a reação dos mecanismos antioxidantes. Os principais biomarcadores enzimáticos do sistema antioxidante são: superóxido dismutase (SOD), catalase (CAT), glutationa (GSH), glutationa-S-transferase (GST), acetilcolinesterase (AchE), carboxilesterase (CES), alcalinefosfatase (ALP) e, ainda, os biomarcadores de peroxidação lipídica e de oxidação de proteínas.

A definição de biomarcadores que possam demonstrar os danos provocados pelo estresse oxidativo e a presença de substâncias antioxidantes serão fundamentais para consolidar os dados toxicológicos dos produtos testados, com o intuito de predizer os efeitos dessas substâncias no L. fortunei.

REFERÊNCIAS CONSULTADAS

 

Amorim, L. C. A. (2003). “Os biomarcadores e sua aplicação na avaliação da exposição aos agentes químicos ambientais.” Revista Brasileira de Epidemiologia 6: 158-170.

Bertoletti, E., E. Gherardi-Goldstein, P. A. Zagatto and C. d. T. de Saneamento Ambiental (1989). “Variabilidade de testes de toxicidade com peixes.” Ambiente: revista CETESB de tecnologia 3(1): 52-58.

Brugnoli, E. and J. Clemente (2002). “Los moluscos exóticos en la Cuenca del Plata: su potencial impacto ambiental y económico  ” Sección Limnología.Facultad de Ciencias. Universidad de la República Oriental del Uruguay.

Calazans, S. H. C., J. A. Americo, F. da Costa Fernandes, D. C. Aldridge and M. de Freitas Rebelo (2013). “Assessment of toxicity of dissolved and microencapsulated biocides for control of the Golden Mussel Limnoperna fortunei.” Marine environmental research 91: 104-108.

Cataldo, D., D. Boltovskoy and M. Pose (2002). Control del molusco incrustante Limnoperna fortunei mediante el agregado de moluscicidas al agua. Tercera jornada sobre conservación de la fauna íctica en el rio Uruguay. Paysandu, Uruguay.

Claudi, R. and M. D. Oliveira (2015). Alternative Strategies for Control of Golden Mussel (Limnoperna fortunei) in Industrial Facilities. Limnoperna Fortunei, Springer: 463-476.

Depledge, M. and M. Fossi (1994). “The role of biomarkers in environmental assessment (2). Invertebrates.” Ecotoxicology 3(3): 161-172.

Jesus, T. B. and C. E. V. de Carvalho (2008). “Utilização de biomarcadores em peixes como ferramenta para avaliação de contaminação ambiental por mercúrio (Hg).” Oecologia brasiliensis 12(4): 7.

Matsui, Y., K. Nagaya, G. Funahashi, Y. Goto, A. Yuasa, H. Yamamoto, K. Ohkawa and Y. Magara (2002). “Effectiveness of antifouling coatings and water flow in controlling attachment of the nuisance mussel Limnoperna fortunei. .” Biofouling 18(2): 137-148.

Mattos, I. L. d., K. A. Shiraishi, A. D. Braz and J. R. Fernandes (2003). “Peróxido de hidrogênio: importância e determinação.” Química nova: 373-380.

Pastorino, G., G. Darrigran, S. M. Martin and L. Lunaschi (1993). “Limnoperna fortunei (DUNKER, 1857) (Mytilidae), a new bivalve invading the waters of Rio de La Plata.” Neotropica La Plata 39: 101-102.

Rajagopal, S., G. van der Velde and H. A. Jenner (2002). “Effects of low-level chlorination on zebra mussel, Dreissena polymorpha.” Water Research 36(12): 3029-3034.

Walker, C. H., R. Sibly and D. B. Peakall (2016). Principles of ecotoxicology, CRC press.