Por Luciana Rodrigues de Souza Bastos

Publicado em 14 de agosto de 2017

 

Tem sido crescente o interesse na instalação de viveiros de peixes em pequenas propriedades por todo o Brasil, como uma alternativa à produção de alimento para utilização própria ou para comercialização. No entanto, em conjunto a esta expansão não é incomum reclamações de produtores sobre problemas e prejuízos, como por exemplo, o aparecimento de parasitas e doenças, a grande quantidade de algas e plantas nos viveiros, alterações no pH (que avalia se a água é ácida, neutra ou alcalina), na turbidez da água (que indica o quanto há de material suspenso na água) e elevados índices de mortalidade. A maior parte destes acontecimentos está relacionada com o desconhecimento quanto aos procedimentos de instalação e manejo necessários ao processo de criação. O primeiro (e grande) fator a ser levado em consideração é a espécie que será cultivada, as tecnologias, dificuldades e benefícios da criação, bem como, a aceitação da mesma no mercado. O segundo fator é a definição de onde o viveiro será implantado. A escolha do local, o conhecimento sobre a topografia da região, as características do solo, a qualidade e quantidade da água que irá abastecer o sistema, a profundidade da escavação e o tipo de vegetação do local, são de suma importância para o início do projeto. Todos esses fatores são determinantes para a definição da viabilidade e qualidade do processo de instalação e deverão ser previamente estabelecidos por meio da avaliação dos custos. De modo bem geral, terrenos pouco inclinados (menos de 5%), próximos e mais baixos em relação ao ponto de captação de água, com solo em condições intermediárias entre argiloso e arenoso (mínimo de 40% de argila) são os ideais. Além disso, é essencial conhecer o nível de acidez deste solo, e, proceder com a correção deste, de modo a não interferir no pH da água. O tamanho do viveiro, por sua vez, dependerá da oferta de espaço e água dentro da propriedade e da espécie de peixe a ser cultivada.

Uma vez escolhido o local, a área deverá ser limpa para total remoção de galhos, raízes e restos de vegetação. Procede-se a escavação, instalação e a preparação dos viveiros para a recepção dos animais. O preparo do viveiro consiste basicamente na calagem e nas adubações. A calagem deve ser realizada em viveiros cujo pH do solo é inferior a 7,0. Depois de calado, o viveiro deverá aguardar por, pelo menos 15 dias, para ser adubado. A adubação é realizada por meio da adição de adubos químicos, disponíveis em diferentes composições no mercado, em combinação com fósforo, nitrogênio e calcário. A partir deste momento, o produtor poderá dar inicio ao enchimento do viveiro para o recebimento dos alevinos. Nesta etapa, o produtor deve ter em mente que a atividade de piscicultura demanda grande quantidade e alta qualidade de água. Para se ter uma ideia, um viveiro de 1 ha e com 1,5 m de profundidade necessita de 15.000 m3 de água. Uma vez que houve o enchimento do viveiro, a reposição de água no mesmo deve ocorrer exclusivamente quando houver elevada perda por evaporação ou infiltrações e, para equilibrar o pH e níveis de oxigênio alterados em decorrência da degradação da matéria orgânica, como vegetação aquática ou restos de ração. O ideal é que o sistema de abastecimento dos viveiros seja individualizado, ou seja, evitar a transferência de água entre os viveiros existentes na propriedade.

Imagem texto agosto 2017

 

Tão importante quanto os cuidados na instalação e preparo dos viveiros é a procedência e alocação dos alevinos. Procurar adquirir alevinos de fazendas de criação que primam pela qualidade das matrizes e que ofereçam alevinos de boa qualidade genética, pois este é um passo importante para uma produção adequada. Além disso, é imprescindível que os alevinos sejam aclimatados (ainda nas embalagens onde foram transportados) à temperatura da água do viveiro, por cerca de 30 a 60 min. Os alevinos não podem ser soltos no viveiro imediatamente após sua chegada. O choque térmico resultante da diferença entre a temperatura do transporte e a da água do viveiro pode dizimar o lote adquirido. Uma vez que os alevinos foram soltos no viveiro, o produtor deverá proceder com a nutrição dos mesmos, cuja frequência de fornecimento e característica nutricional da ração (quantidade de proteína) é bastante variável e dependente da espécie. De modo geral, alevinos necessitam de ração com elevado teor proteico, a qual deverá ser fornecida na forma farelada ou granulada. Conforme os peixes forem crescendo a ração deverá ser substituída para formulações com menor índice proteico nas formas peletizada (não flutuantes) ou extrusada (flutuantes). A quantidade a ser lançada poderá variar de 1 a 4% da biomassa do viveiro, ou seja, do peso total de peixes no viveiro e, a frequência é de uma a seis vezes no dia, dependendo da espécie e da finalidade da criação. É muito importante o fornecimento da ração em quantidade adequada para não sobrecarregar o sistema de matéria orgânica, cuja degradação resulta em níveis altamente tóxicos de compostos como a amônia e nitrito.

O monitoramento da qualidade da água (níveis de oxigênio, pH, temperatura, concentração de amônia, e nitrito) é essencial e independente da espécie que será cultivada. A atenção a estes fatores garante a saúde dos peixes, prevenindo e controlando o aparecimento de doenças e a morte dos animais. A maior parte das infestações por protozoários, bactérias e outros agentes patogênicos (como os fungos e vírus), bem como as perdas mais significativas dos estoques estão, normalmente, associadas ao inadequado controle da qualidade da água e o manejo. Dentre os principais fatores que contribuem para o aparecimento de enfermidades e/ou perda de parte ou de todo o lote de peixes estão: a) elevada densidade de peixes, incompatível ao tamanho do viveiro; b) dieta pouco nutritiva ou inadequada; c) manipulação intensa e frequente (como classificações e transferências constantes); d) presença de predadores próximos ao viveiro (especialmente aves); e) temperaturas inadequadas à espécie (baixas ou excessivamente elevadas); f) baixo nível de oxigênio dissolvido; g) elevada concentração de produtos nitrogenados (amônia e nitrito); h) excesso de matéria orgânica e i) eutrofização.

As manifestações comportamentais das diferentes patologias que acometem os peixes são diversas, mas geralmente resultam em: formação de cardumes na superfície da água, acúmulo de peixes abaixo da entrada de água, ocorrência de indivíduos com coloração alterada, natação alterada ou aparecimento de exemplares mortos. A ocorrência de qualquer uma dessas manifestações indica, fortemente, a necessidade de checar a qualidade da água e de amostrar um número de indivíduos para inspeção quanto à presença de parasitas ou sinais de infecções. De modo geral, para se obter sucesso no processo de criação, qualquer piscicultura depende da adoção de práticas de gestão e manejo que minimizem o risco da infestação por patógenos, bem como a severidade do impacto das doenças nos viveiros e, consequentemente, prejuízos ao produtor. Para isso, é essencial o estabelecimento de uma rotina de monitoramento da qualidade da água e de monitoramento parasitológico. Profissionais capacitados podem orientar e auxiliar quanto à adoção de técnicas de gestão e manejo, prevenindo e, principalmente, indicando tratamentos adequados às enfermidades, uma vez que a utilização de alguns medicamentos pode comprometer a qualidade do pescado.

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