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Por Luciana Rodrigues de Souza Bastos

Publicado em 14 de agosto de 2017

 

Tem sido crescente o interesse na instalação de viveiros de peixes em pequenas propriedades por todo o Brasil, como uma alternativa à produção de alimento para utilização própria ou para comercialização. No entanto, em conjunto a esta expansão não é incomum reclamações de produtores sobre problemas e prejuízos, como por exemplo, o aparecimento de parasitas e doenças, a grande quantidade de algas e plantas nos viveiros, alterações no pH (que avalia se a água é ácida, neutra ou alcalina), na turbidez da água (que indica o quanto há de material suspenso na água) e elevados índices de mortalidade. A maior parte destes acontecimentos está relacionada com o desconhecimento quanto aos procedimentos de instalação e manejo necessários ao processo de criação. O primeiro (e grande) fator a ser levado em consideração é a espécie que será cultivada, as tecnologias, dificuldades e benefícios da criação, bem como, a aceitação da mesma no mercado. O segundo fator é a definição de onde o viveiro será implantado. A escolha do local, o conhecimento sobre a topografia da região, as características do solo, a qualidade e quantidade da água que irá abastecer o sistema, a profundidade da escavação e o tipo de vegetação do local, são de suma importância para o início do projeto. Todos esses fatores são determinantes para a definição da viabilidade e qualidade do processo de instalação e deverão ser previamente estabelecidos por meio da avaliação dos custos. De modo bem geral, terrenos pouco inclinados (menos de 5%), próximos e mais baixos em relação ao ponto de captação de água, com solo em condições intermediárias entre argiloso e arenoso (mínimo de 40% de argila) são os ideais. Além disso, é essencial conhecer o nível de acidez deste solo, e, proceder com a correção deste, de modo a não interferir no pH da água. O tamanho do viveiro, por sua vez, dependerá da oferta de espaço e água dentro da propriedade e da espécie de peixe a ser cultivada.

Uma vez escolhido o local, a área deverá ser limpa para total remoção de galhos, raízes e restos de vegetação. Procede-se a escavação, instalação e a preparação dos viveiros para a recepção dos animais. O preparo do viveiro consiste basicamente na calagem e nas adubações. A calagem deve ser realizada em viveiros cujo pH do solo é inferior a 7,0. Depois de calado, o viveiro deverá aguardar por, pelo menos 15 dias, para ser adubado. A adubação é realizada por meio da adição de adubos químicos, disponíveis em diferentes composições no mercado, em combinação com fósforo, nitrogênio e calcário. A partir deste momento, o produtor poderá dar inicio ao enchimento do viveiro para o recebimento dos alevinos. Nesta etapa, o produtor deve ter em mente que a atividade de piscicultura demanda grande quantidade e alta qualidade de água. Para se ter uma ideia, um viveiro de 1 ha e com 1,5 m de profundidade necessita de 15.000 m3 de água. Uma vez que houve o enchimento do viveiro, a reposição de água no mesmo deve ocorrer exclusivamente quando houver elevada perda por evaporação ou infiltrações e, para equilibrar o pH e níveis de oxigênio alterados em decorrência da degradação da matéria orgânica, como vegetação aquática ou restos de ração. O ideal é que o sistema de abastecimento dos viveiros seja individualizado, ou seja, evitar a transferência de água entre os viveiros existentes na propriedade.

Imagem texto agosto 2017

 

Tão importante quanto os cuidados na instalação e preparo dos viveiros é a procedência e alocação dos alevinos. Procurar adquirir alevinos de fazendas de criação que primam pela qualidade das matrizes e que ofereçam alevinos de boa qualidade genética, pois este é um passo importante para uma produção adequada. Além disso, é imprescindível que os alevinos sejam aclimatados (ainda nas embalagens onde foram transportados) à temperatura da água do viveiro, por cerca de 30 a 60 min. Os alevinos não podem ser soltos no viveiro imediatamente após sua chegada. O choque térmico resultante da diferença entre a temperatura do transporte e a da água do viveiro pode dizimar o lote adquirido. Uma vez que os alevinos foram soltos no viveiro, o produtor deverá proceder com a nutrição dos mesmos, cuja frequência de fornecimento e característica nutricional da ração (quantidade de proteína) é bastante variável e dependente da espécie. De modo geral, alevinos necessitam de ração com elevado teor proteico, a qual deverá ser fornecida na forma farelada ou granulada. Conforme os peixes forem crescendo a ração deverá ser substituída para formulações com menor índice proteico nas formas peletizada (não flutuantes) ou extrusada (flutuantes). A quantidade a ser lançada poderá variar de 1 a 4% da biomassa do viveiro, ou seja, do peso total de peixes no viveiro e, a frequência é de uma a seis vezes no dia, dependendo da espécie e da finalidade da criação. É muito importante o fornecimento da ração em quantidade adequada para não sobrecarregar o sistema de matéria orgânica, cuja degradação resulta em níveis altamente tóxicos de compostos como a amônia e nitrito.

O monitoramento da qualidade da água (níveis de oxigênio, pH, temperatura, concentração de amônia, e nitrito) é essencial e independente da espécie que será cultivada. A atenção a estes fatores garante a saúde dos peixes, prevenindo e controlando o aparecimento de doenças e a morte dos animais. A maior parte das infestações por protozoários, bactérias e outros agentes patogênicos (como os fungos e vírus), bem como as perdas mais significativas dos estoques estão, normalmente, associadas ao inadequado controle da qualidade da água e o manejo. Dentre os principais fatores que contribuem para o aparecimento de enfermidades e/ou perda de parte ou de todo o lote de peixes estão: a) elevada densidade de peixes, incompatível ao tamanho do viveiro; b) dieta pouco nutritiva ou inadequada; c) manipulação intensa e frequente (como classificações e transferências constantes); d) presença de predadores próximos ao viveiro (especialmente aves); e) temperaturas inadequadas à espécie (baixas ou excessivamente elevadas); f) baixo nível de oxigênio dissolvido; g) elevada concentração de produtos nitrogenados (amônia e nitrito); h) excesso de matéria orgânica e i) eutrofização.

As manifestações comportamentais das diferentes patologias que acometem os peixes são diversas, mas geralmente resultam em: formação de cardumes na superfície da água, acúmulo de peixes abaixo da entrada de água, ocorrência de indivíduos com coloração alterada, natação alterada ou aparecimento de exemplares mortos. A ocorrência de qualquer uma dessas manifestações indica, fortemente, a necessidade de checar a qualidade da água e de amostrar um número de indivíduos para inspeção quanto à presença de parasitas ou sinais de infecções. De modo geral, para se obter sucesso no processo de criação, qualquer piscicultura depende da adoção de práticas de gestão e manejo que minimizem o risco da infestação por patógenos, bem como a severidade do impacto das doenças nos viveiros e, consequentemente, prejuízos ao produtor. Para isso, é essencial o estabelecimento de uma rotina de monitoramento da qualidade da água e de monitoramento parasitológico. Profissionais capacitados podem orientar e auxiliar quanto à adoção de técnicas de gestão e manejo, prevenindo e, principalmente, indicando tratamentos adequados às enfermidades, uma vez que a utilização de alguns medicamentos pode comprometer a qualidade do pescado.

Por Gisela G. Castilho-Westphal

Publicado em  21 de julho de 2017

 

Doenças de notificação obrigatória à Organização Mundial para Saúde Animal (OIE)

Anualmente a OIE publica uma lista de Doenças de Notificação Obrigatória (DNO) para diferentes grupos animais. Com este monitoramento, tem-se um amplo mapa da ocorrência de surtos e da presença de doenças em diferentes partes do mundo. Este processo facilita a disseminação de informações, auxiliando na tomada de decisões para o trânsito animal internacional e nacional.

Além disso, as DNO causam prejuízos econômicos associados ao controle, erradicação e impactos nas transações comerciais internacionais. A alteração do status sanitário de um país devido à suspeita ou à presença de uma doença de notificação obrigatória pode comprometer as vendas externas para países ou grupos de mercados, causando também o enfraquecimento do comércio interno, aumento de desemprego e consequente escassez de renda 1.

No ano de 2017 foram relacionadas pela OIE como doenças de notificação obrigatória em crustáceos:

  • Necrose Hepatopancreática Aguda (Acute Hepatopancreatic Necrosis Disease)

  • Crayfish Plague (Aphanomyces astaci)

  • Doença da Cabeça Amarela (Infection with Yellowhead Virus)

  • Necrose Infecciosa Hipodermal e Hematopoiética (Infectious Hypodermal and Haematopoietic Necrosis)

  • Mionecrose Infecciosa (Infectious Myonecrosis)

  • Hepatopancreatite Necrosante (Necrotising Hepatopancreatitis)

  • Síndrome de Taura (Taura Syndrome)

  • Síndrome da Mancha Branca (White Spot Disease)

  • Doença da Cauda Branca (White Tail Disease)

Algumas das doenças relacionadas já foram descritas no Brasil, como identificado na Tabela 1.

Tabela 1. Situação do Brasil em relação ao relato de doenças de notificação obrigatória a OIE que afetam camarões marinhos. Dados referentes ao período de janeiro a junho de 2016.

Doença

Situação segundo OIE

Animais de cultivo

Animais do ambiente

Doença da Cabeça Amarela (YHD)

Doença nunca reportada.

Não

Não

Hepatopancreatite Necrosante (NHP)

Sinais clínicos demostrados. Suspeita da presença da doença, mas não confirmada.

Sim

Sim

Mionecrose Infecciosa (IMN)

Sinais clínicos demostrados, doença presente.

Sim

Sim

Necrose Hepatopancreática Aguda (EMS ou AHPNS)

Doença nunca reportada.

Não

Não

Necrose infecciosa Hipodermal e Hematopoiética (IHHN)

Doença nunca reportada.

Não

Sim

Síndrome da Mancha Branca (WSD)

Sinais clínicos demostrados, doença presente.

Sim

Sim

Síndrome de Taura (TS)

Suspeita da presença da doença, mas não confirmada.

Sim

Sim


Dentre as DNO listadas na Tabela 1, cinco já foram relatadas no país e provocaram impactos importantes na carcinicultura, são elas: quatro doenças virais (Mionecrose Infecciosa, Necrose Infecciosa Hipodermal e Hematopoiética, Síndrome de Taura e Síndrome da Mancha Branca) e uma bacteriana (Hepatopancreatite Necrosante).

 Doenças virais

Fig. 1

Figura 1. Mionecrose infecciosa (IMN). Camarões com perda da transparência de alguns segmentos indicado pelas setas. Fonte: Amalia²

 

Fig. 2a

Figura 2. Mionecrose infecciosa (IMN). Camarões com diferentes níveis de necrose muscular, observada pela intensidade em que o abdome aparece na cor branco leitoso. Fonte: Yangteze³

 

Fig. 3a

Figura 3. Necrose Infecciosa Hipodermal e Hematopoiética (IHHVN). Juvenis de Litopenaeus vannamei infectados por este virus e com a Síndrome da Deformidade e do Nanismo (RDS). Animal com anormalidade cuticular da porção final do abdome. Fonte: Sitto Vietnam4

 

Fig. 4a

Figura 4. Necrose Infecciosa Hipodermal e Hematopoiética (IHHVN). Juvenis de Litopenaeus vannamei infectados por IHHVN e com a Síndrome da Deformidade e do Nanismo (RDS). Animal com deformidade no rostro. Fonte: Sitto Vietnam4

 

Fig. 5a

Figura 5. Síndrome de Taura (TS). Camarões Litopenaeus vannamei com urópodos e pleópodos vermelhos (acima) e um animal saudável (abaixo). Fonte: Gunawan5

 

Fig. 6

Figura 6. Síndrome de Taura (TS). Camarões Litopenaeus vannamei com urópodos e pleópodos vermelhos. Fonte: OBP6

Fig. 7

Figura 7. Síndrome de Taura (TS). Melanização na superfície do corpo de um camarão na fase crônica da TS. Fonte: Aquavietnam7

 

Fig. 8a

Figura 8. Síndrome da Mancha Branca (WSSV). Camarão peneídeo com manchas brancas circulares no exoesqueleto. Fonte: Ciba8

 

Fig. 9

Figura 9. Síndrome da Mancha Branca (WSSV). Camarão peneídeo com manchas brancas circulares no exoesqueleto e cefalotórax soltando-se do corpo. Fonte: CGHP9

 

Fig. 10

Figura 10. Doença da Cabeça Amarela (YHD). Teste rápido para YHV/GAV. É considerado positivo o tesque que apresentar duas linhas roxas, como demonstrado pelo camarão Litopenaeus vannamei colocado na porção superior da imagem e que também apresenta hepatopâncreas e brânquias de coloração amarelada. Animal na porção inferior da imagem, com uma linha roxa no teste é considerado negativo para a doença. Fonte: Songsok et al.10

 

Fig. 11a

Figura 11. Doença da Cabeça Amarela (YHD). Camarões da espécie Penaeus monodon com cefalotórax e brânquias amareladas, nadando próximos às margens do viveiro. Fonte Songsok et al.10

 

Fig. 12a

Figura 12. Hepatopancreatite Necrosante (NHP). Camarão e hepatopâncreas (HS) saudáveis (acima). Camarão e hepatopâncreas (HD) infectados pelo vírus da hepatopancreatite necrosante (abaixo). Fonte: CRL11

 

Fig. 14

Figura 13. Síndrome da mortalidade precoce (EMS) ou Síndrome aguda da necrose hepatopancreática (AHPNS). Juvenis de Litopenaeus vannamei. Animal doente com hepatopâncreas atrofiado e despigmentado (esquerda) e animal saudável com hepatopâncreas escuro e de tamanho normal (direita). Fonte: Lightner et al.12

Referências Consultadas

DE SÁ, M. E. P.; DE MELO, C. B. Disseminação de enfermidades animais por meio do comércio internacional e o papel dos serviços veterinários de fronteira no Brasil. Revista Brasileira de Medicina Veterinária, v. 38, n. 1, p. 6,  2016.   

2 AMALIA, R. Infectious Myonecrosis Virus (IMNV). Catatan Dokter Ikan,  2016.  Disponível em: < http://www.catatandokterikan.com/2016/04/infectious-myonecrosis-virus-imnv.html >.

3 YANGTZE. Đc cơ trên tôm và cách phòng nga.  2016.  Disponível em: < http://bioaqua.vn/duc-co-tren-tom-va-cach-phong-ngua/ >.

4 SITTO VIETNAM. Disease by viral pathogen 2011.

5 GUNAWAN, H. Camarão com Síndrome Taura. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Litopenaeus_vannamei_specimen.jpg 2016.

6 OBP. Organica Biotech Pvt. Taura syndrome virus causes devastating economical impact on shrimp aquaculture. Organica Biotech Pvt. Ltd. 2015.

7 AQUAVIETNAM. Taura Syndrome - TSV: American Aqua Viet Nam CO., Ltda. 2016.

8 CIBA, C. I. O. B. A. I.-. Ensuring WSSV Free Sediment and Water for Prevention of White Spot Disease. BioAqua 2014.

9 CGHP. S dng IHHNV và WSSV đã bt hot giúp tôm th chân trng kháng bnh đm trng do virus.  2016.  Disponível em: < http://tomgionghungphu.com/Su-dung-IHHNV-va-WSSV-da-bat-hoat-giup-tom-the-chan-trang-khang-benh-dom-trang-do-virus-a2217-c904-ntts.aspx?Lang=vi >.

10 SONGSOK, A.; LIMSUWAN, C.; CHUCHIRD, N. Infection in Litopenaeus vannamei by experimental injection and feeding at different salinity levels. Thailand.

11 CRL. The University of Southern Mississippi Gulf. Shrimp Disease Research: Coast Research Laboratory 2016.

12 LIGHTNER, D. V.; REDMAN, R. M.; PANTOJA, C. R.; NOBLE, B. L.; NUNAN, L. M.; TRAN, L.; GOMEZ J., S. Documentation of an Emerging Disease (Early Mortality Syndrome in SE Asia & Mexico).

Por Diego Stevanato, Fabricio Salvador Vidal e Vitor Rossi

Publicado em 15/05/2017

 

A espécie Limnoperna fortunei (Dunker, 1857), popularmente conhecida como mexilhão dourado é originária do sudeste asiático. Aqui no Brasil, essa espécie é uma espécie não-nativa e de alto potencial invasivo devido a suas características biológicas como rápido poder reprodutivo, precocidade sexual, ciclo de vida curto e eficiente capacidade de dispersão.

 

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Figura 1. Visão externa e interna de um exemplar de Limnoperna fortunei. Fonte: researchgate.net/publication/295550174

 

Essa, por sua vez, vem provocando diversos impactos de ordem ambiental, econômica e social. Nas usinas hidrelétricas brasileiras, estes impactos estão relacionados principalmente à sua capacidade de obstruir os ductos dos sistemas de resfriamento (filtros e trocadores de calor). Vale ressaltar que os problemas desincrustação dentro das usinas não são consequência apenas da presença dos mexilhões, mas  também de outros fatores, tais como: depósitos de sólidos suspensos, lama ferruginosa e a formação de biofilmes que, somados aos danos causados pelo mexilhão dourado, contribuem para acentuar os prejuízos econômicos presentes neste setor

 

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Figura 2. Exemplares de mexilhão dourado fixados em estruturas do sistema de resfriamento de uma usina hidrelétrica. Foto: GIA, 2015.

 

A introdução dessa espécie na América do Sul ocorreu a partir da Bacia de Bagliard no rio do Prata , Argentina, onde os primeiros registros datam do ano de 1991  (Pastorino et al., 1993). Credita-se esta introdução ao despejo de água de lastro dos navios provenientes do sudeste asiático e que realizavam suas operações nos portos da Bacia do rio da Prata (Darrigram e Pastorino, 1995). Os primeiros registros do L. fortunei no Brasil ocorreram no ano de 1998 nos estados do Rio Grande do Sul e Matogrosso, tendo como via de acesso a Bacia do baixo rio Paraná (Darrigran, 2002). Devido à sua alta capacidade de dispersão, deslocando-se em um ritmo de 240 km por ano,  já no ano 2003sua presença foi detectada em usinas do estado de São Paulo, na bacia do rio Paraná e, ao longo do rio Paraguai (Oliveira et al., 2004).

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Figura 3. Mapa das rotas de invasão do mexilhão dourado na América do Sul. Fonte: http://blog.ted.com/a-ted-fellow-wields-genes-to-protect-the-amazon/

Até o momento, não há um método de controle do mexilhão dourado que possa ser considerado definitivo. As diferentes tentativas de controle se baseiam em métodos físicos, químicos, controles biológicos e tintas anti-incrustantes. A eficácia dos métodos utilizados leva em consideração a correlação entre a eficiência, o custo de aplicação e os potenciais riscos ambientais.

Os métodos de controle físico mais aplicados são:

  • Remoção manual ou mecânica de populações encontradas nas estruturas internas e externas dos ductos de resfriamento;
  • Elevação da temperatura;
  • Utilização de filtros fixos e móveis;
  • Uso de correntes elétricas;
  • Uso de radiação ultravioleta (UV);

Velocidade da corrente de água.

Os métodos de controle químico estão entre os mais utilizados, devido a apresentarem uma resposta mais rápida e de fácil aplicação. No entanto, são os que mais apresentam restrições legais. Os tratamentos químicos são categorizados em agentes oxidantes e não oxidantes:

Oxidantes:

  • Cloro gasoso;
  • Dióxido de cloro;
  • Dicloroisocianurato de sódio, (Figura 04);
  • Hidróxido de sódio;
  • Ozônio;
  • Peróxido de hidrogênio.

Não oxidantes:

  • Quaternários de amônia;
  • Niclosamidas;
  • Hidrocarbonetos aromáticos;
  • Sulfatos de cobre;
  • Sais de potássio.

 

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Figura 4. Esquema de um sistema de injeção e controle de dicloroisocianurato em tubulação do sistema de resfriamento de uma usina hidrelétrica. Fonte: https://pt.linkedin.com/pulse/digimed-lan%C3%A7a-analisador-de-cloro-org%C3%A2nico-para-combater-karina-souza

Os métodos de controle biológico consistem na introdução de espécies que são, comprovadamente, predadoras do L. fortunei. Este método é pouco usual devido aos riscos ambientais associados à introdução de novas espécies, o que pode acarretar em um desequilíbrio ambiental.

A utilização de tintas antiincrustantes como método de controle do L. fortunei é mais observada no recobrimento de embarcações. A composição química desses materiais apresenta componentes tóxicos a base de cobre, níquel e outros materiais organolépticos.

Por Giorgi Dal Pont

Publicado em 03 de julho de 2017

 

A Amazônia representa o mais diversificado e complexo ecossistema conhecido pelo homem e ainda, possui o sistema fluvial mais extenso e de maior massa líquida do mundo. A Bacia Amazônica drena mais de sete milhões de metros quadrados de terras e tem uma vazão anual média de 200.000 m 3 /segundo. Os rios da Amazônia apresentam diferenças marcantes na coloração e na transparência da água devido, principalmente, às características físico-químicas (pH, alcalinidade, condutividade, dureza, oxigênio dissolvido e matéria orgânica dissolvida), biológicas e geológicas, influenciando diretamente a composição e a formação dos diferentes tipos de água. Os tipos de água mais conhecidos na região amazônica são: i) água preta, ii) água clara e iii) água branca.

Os rios da bacia amazônica não apresentam, em sua totalidade, uma água barrenta, amarelada e turva (água branca) como a do Rio Solimões (Figura 1A) e do Rio Amazonas. O Rio Amazonas é formado a partir da mistura da água branca do rio Solimões e da água preta do Rio Negro (Figura 1C) e, dessa forma, apresenta características físicas e químicas bastante variáveis ao longo de sua calha. A água de alguns grandes rios, diferentemente do Rio Solimões, é transparente e cristalina, desprovida de material em suspensão como, por exemplo, a água de coloração preta do Rio Negro (Figura 1B) ou ainda a água clara e esverdeada do Rio Tapajós (Figura 2A e B). 

 

Figura 1 (1)

Figura 1. Diferentes tipos de água que formam os rios amazônicos. A) água barrenta e rica em minerais dissolvidos do Rio Solimões. B) água escura e extremamente pobre em material particulado do Rio Negro. C) encontro das águas dos Rios Solimões e Negro próximo a cidade de Manaus. A partir da junção desses rios é formado o Rio Amazonas.

 

Figura 2 (1)

Figura 2. Diferentes pontos no Rio Tapajós. A) a água esverdeada do Rio Tapajós é o resultado da interação química entre os compostos orgânicos e substâncias minerais em suspensão que, ao se ligarem, precipitam e acumulam no leito do rio. B) encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas.

 

A água preta é extremamente pobre em sais minerais, nutrientes e eletrólitos devido à pouca movimentação e ao suave relevo das suas regiões de origem, Escudos da Guiana e do Brasil Central ou nos sedimentos terciários, onde os processos de erosão são pouco intensos e reduzidos pelo revestimento de floresta onde a água proveniente da precipitação penetra no solo coberto pela vegetação e carrega consigo várias substancias orgânicas. As substâncias húmicas são compostas por ácidos húmicos e flúvicos e são originadas durante o processo de decomposição de resíduos vegetais. O baixo conteúdo de íons somado a presença das substancias húmicas conferem as águas negras um caráter ácido com valores de pH entre 4,8 e 5,1. A grande quantidade de substancias húmicas e carbono orgânico dissolvido (COD) (10 a 14 mgC.L -1 ), provenientes da decomposição de material orgânico é, em grande parte, responsável pela coloração vermelho/marrom transparente da água. 

As nascentes dos rios de água clara provêm, em parte, dos maciços das Guianas e do Brasil Central. Essas regiões são fortemente aplainadas e dessa forma, oferecem poucas possibilidades de erosão. Assim, os rios formados apresentam coloração esverdeada e transportam poucos materiais em suspensão. A grande heterogeneidade química apresentada por esses rios relacionada, principalmente, a diferenças na formação geológica das regiões de nascente faz com que exista, em determinadas épocas do ano uma transição de água clara para água branca. Dessa forma, os valores de pH (4,5 a 7,0) e a condutividade elétrica (6 a 50 µS.cm -1 ) variam muito de acordo com o período do ano. Os minerais mais frequentes nessas águas são o sódio e o potássio, entretanto, em algumas regiões o cálcio e o magnésio podem estar presentes em grandes quantidades.

A composição da água branca dos rios amazônicos é influenciada, principalmente, pela erosão que ocorre na região Andina e Pré-Andina, onde estão localizadas as suas nascentes. Nessa região o solo é relativamente alcalino e rico em sais minerais. Uma alta carga de sedimentos, devido a intensivos processos de erosão, é lançada na água provocando a coloração branca característica. Nas proximidades de Manaus um litro de água do Rio Solimões-Amazonas contém cerca de 0,1 grama de sedimento. A interferência desse sedimento alcalino reflete em um pH próximo a neutralidade (pH 6,5 a 7) e quantidades relativamente altas de sais minerais em solução (Ca ++ 60-70 µS.cm-1/20 °C). Entretanto, a quantidade total de sais minerais representa somente um terço da média mundial. Nesse contexto, o rio Solimões apresenta-se como um típico rio de águas brancas, relativamente rico em nutrientes e eletrólitos, pH entre 6,7 e 6,9, alto teor dos principais cátions (Na + = 35 a 48%, K + = 37 a 41%, Mg ++ = 27 a 41% e Ca ++ = 48 a 65%), alta alcalinidade e rico em carbonatos.

Por Camila Prestes dos Santos Tavares

Publicado em 04 de maio de 2017

 

Figura de capa

O siri-mole é obtido a partir da produção em cativeiro, baseada fundamentalmente na captura de siris em estágio de pré-muda (peelers) no ambiente natural, que depois são transferidos para sistemas de produção, onde são mantidos até realizarem a muda.

A produção de siri-mole é uma atividade aquícola utilizada para agregar valor ao siri em todos os locais em que os siris são pescados, nos Estados Unidos um siri-mole pode ser vendido por até sete vezes o preço que é pago por siris duros, o que torna a atividade um componente efetivo da indústria de frutos-do-mar.

Embora a produção de siri-mole seja lucrativa, grandes perdas financeiras também são comuns devido à alta mortalidade dos peelers durante o período de cativeiro. Assim, o valor da indústria de siri-mole é diretamente dependente da taxa de mortalidade dos peelers.

De acordo com Chaves e Eggleston (2003) em sistemas de cultivo de siri-mole, os siris geralmente sofrem taxas de mortalidade de 25% ou mais, essa taxa tem sido atribuída à má qualidade da água (Lakshmi, 1984; Hochheimer, 1988), ao estresse de coleta e transporte (Chaves e Eggleston, 2003) e a doenças e parasitas (Kennedy e Cronin, 2007). Entretanto, mais recentemente foi descoberto um vírus específico de siri que foi fortemente associado com a maioria dos eventos de mortalidade de siris em sistemas de cultivo (Bowers et al., 2011; Chung et al., 2015).

Este vírus, originalmente foi descoberto por microscopia eletrônica e chamado reo-like vírus (também chamado de RLV ou CsRV), pertence a família Reoviridae, possui uma forma icosaédrica associada a uma cápside de dupla camada, se replica no citoplasma das células infectadas, mede entre 60 e 80 nm de diâmetro e contêm um genoma que consiste em 10 a 13 segmentos de dsRNA (Tang et al., 2011). O vírus infecta os hemócitos, os tecidos hemopoiéticos e conjuntivos e causa patologia de tecidos em associação com a infiltração de hemócitos (Figura 1) e podem também ocasionar necroses (Figura 2).

Figura 1

Figura 1. Histologia de tecidos de Callinectes sapidus infectados pelo vírus reo-like. A) Muitas células têm volume citoplasmático aumentado (seta amarela) indicativo de inclusões de vírus em comparação com o volume citoplasmático mais normal (seta azul). Barra de escala = 10 μm. B) Microscopia eletrônica de hemócito cheio de viriões e material filamentoso (FONTE: Bowers et al. (2010)).

Figura 2

Figura 2. Histologia de tecidos de Scylla serrata infectados com vírus reo-like. A) Necrose de brânquia. As setas mostram inclusões virais (bar = 50 μm). B) Necrose do estômago (bar = 50 μm). C) Necrose do tecido conjuntivo de hepatopâncreas (bar = 50 μm). D) Tecido hepatopancrear de um siri saudável (bar = 50μm) (FONTE: Chen et al. (2011)).

O RLV foi encontrado em mais de 50% dos siris Callinectes sapidus provenientes de sistemas de produção de siri-mole e também estava presente em pelo menos 5% das populações selvagens amostrados nas proximidades de Maryland e na costa do Golfo da Flórida, nos Estados Unidos. Em infecções laboratoriais de juvenis de C. sapidus, este vírus resultou em 100% de mortalidade entre uma a três semanas após a injeção do vírus.

O mesmo vírus também foi registrado em sistemas de cultivo do siri-da-lama Scylla serrata na China, reo-like vírus atingiu graves níveis de epidemia e causou taxas de mortalidade superior a 90% (Chen et al., 2011)

Pesquisas mais recentes revelaram que o vírus está presente em uma média de 20% dos siris desde Massachusetts até o Brasil (Flowers et al., 2016), e que o RLV é mais patogênico em temperaturas elevadas. Em um estudo controlado usando siris Callinectes sapidus de idade e condição idênticas, infecções experimentais mataram os siris mais em temperaturas de 29°C do que em 22° C (Chung et al., 2015). Isso sugere que quando os siris com infecções naturalmente adquiridas são mantidos em sistemas de produção de siri-mole sob temperaturas elevadas morrem mais rapidamente do que aqueles mantidos em água mais fria.

A mortalidade de peelers causa uma perda de tempo e dinheiro investidos na produção. Se calcularmos que nos últimos 10 anos a pesca de peelers nos Estados Unidos gerou um valor médio anual de US$ 12 milhões (dados NOAA, NMFS), e a metade da mortalidade nos sistemas de cultivo está associada ao vírus reo-like, a perda anual será de US$ 6 milhões.

A descoberta de um vírus que causa mortalidade em peelers e siris-moles quando cultivados em temperatura acima de 29 °C reforça a necessidade de se controlar as variáveis de qualidade da água, principalmente a temperatura. O uso de sistemas de recirculação no cultivo de siri-mole, devido ao maior controle das variáveis ambientais que esse sistema oferece, é a principal forma para minimizar as taxas de mortalidade (Gaudé e Anderson, 2011).

 

BIBLIOGRAFIA CITADA

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BOWERS, H. A.  et al. Physicochemical properties of double-stranded RNA used to discover a reo-like virus from blue crab Callinectes sapidus. Diseases of aquatic organisms, v. 93, n. 1, p. 17-29,  2010. ISSN 0177-5103.  

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